A Princesa Isabel entre os caipiras da região

Princesa Isabel, Rio de Janeiro, 1870 (foto: Joaquim Insley Pacheco)

Um diário da Princesa Isabel, publicado em livro, revela, ao mesmo tempo, uma imagem mais generosa da então “herdeira presuntiva do trono do Brasil” e o interesse da monarquia pelo desenvolvimento agrícola paulista.  A publicação do diário da princesa mostra sensibilidades que têm sido sonegadas pela maioria dos historiadores. É uma Princesa Isabel preocupada com o povo, com a economia, dedicada às artes, atenta às mudanças, interessada em aspectos econômicos, enfim, com uma cultura humanística de traços, às vezes, comoventes.

A viagem iniciou-se no dia 5 de novembro de 1884. Partindo da estação do Campo da Aclimação, antigo Campo de Sant´Ana, a Princesa  e sua comitiva fariam a  primeira parada na cidade de Lorena, no Vale do Paraíba, em São Paulo.

No Vale do Paraíba

“Chegada a Lorena, às duas horas e meia, com meus olhos ardendo desesperadamente por causa do carvão.” Assim, a Princesa Isabel narra a sua primeira parada no interior de São Paulo. A queixa procedia e era de todos os que faziam o trecho entre Cacheira e São Paulo, pois a bitola era estreita e, além do carvão da locomotiva, havia a poeira do leito de terra.

Em Lorena, a Princesa se hospeda na casa do Visconde de Moreira Lima, “num jantar que durou das sete às novfe horas”, após o que ouviu um concerto organizado pela anfitriã, a viscondessa. Comentário de Isabel: “Alguma senhoras não se saíram mal no piano”. E, no dia seguinte, visitando a igreja, acha-a “bem bonita, sobretudo interiormente”, mas há coisas que não a agradam:  “um santo que teriam feito melhor vestir e um baldaquim escarlate com uma armação de pau, que teriam feito melhor suprimir.” E conclui: “não acho, à Igreja, um cunho bastante religioso.”

No dia 6 de novembro, deixa Lorena às onze horas, desce  em Guaratinguetá para visitar a Capela Nossa Senhora Aparecida e orar, detém-se, em seguida, por algum tempo em Pindamonhangaba e em Taubaté. É, porém, a passagem pelos então “campos de Moji das Cruzes” que emociona Isabel, despertando-lhe a alma artística. Para ela, os campos são “belos, belos como um belo andante de Beethoven”. E explica-se: “Olhe que é dizer muito para mim, e com efeito são (os campos) incomparáveis.”

Bondes em São Paulo

No mesmo dia 6 de novembro, a comitiva chega a São Paulo, “às cinco horas e meia”.  Há muita gente na estação e, também, uma forte chuva de pedra. Hospeda-se na casa do Barão de Três Rio, Joaquim Egídio de Souza Aranha, poderoso fazendeiro de Campinas, em cujo município há, ainda hoje, um distrito com seu nome, Joaquim Egídio. A casa do Barão encanta a Princesa: “magnífica, arranjada com muito gosto, cravos a valer e lindos, begônias magníficas, cama macia, um bom piano”. É nesse piano, que ela própria solicitou à Casa Levy, de instrumentos musicais, que ela estuda na manhã do dia 7,  aproveitando para descansar.

Com os filhos Pedro, Luís e Antônio, Isabel sai, no dia 8, para pescar, “num remanso, não muito longe da casa”. É quando duas jararacas armam o bote para Pedro: “Graças a Deus, alguém avistou-as e gritou a tempo.” Mas são os bondes que parecem ter feito a alegria da Princesa. Ela registra ter ido “em bonde, visitar o Bazar Garret, o Grande Hotel, a Tipografia Martin, a Faculdade”, que é a de Direito, no antigo prédio do Convento de São Francisco. E prega peça nos repórteres, pedindo que “viesse um só bonde, manobrando (…) para que não viessem a nossa saída.”

E emite a sua opinião sobre a capital paulista naquele dia 8 de novembro de 1.884: “Eis, agora, o que penso de São Paulo, como cidade: situação magnífica e proporção para uma cidade esplêndida, alguns edifícios bonitos, mas em geral nenhuma arquitetura e muita linha torta.”

Rumo ao interior

No dia 10, a comitiva real embarca no trem da Estrada de Ferro Sorocabana que, saindo de São Paulo, percorriam 186 quilômetros até Tietê. A Princesa Isabel mostra interesse especial em conhecer a fábrica de ferro do Ipanema, próxima de Sorocaba. Ela reflete sobre os preços caros do ferro e pergunta-se: “E se Ipanema fosse arrendada a uma companhia?”

Anota os percalços da visita: “Com chuvisco, visita em vagões, por trilhos de ferro, puxados por animais para subir, descendo pelo próprio peso, troles, cavalos e a pé, também com os meninos às minas de ferro riquíssimas.” E registra sua admiração: “Basta cavar para ter grandes quantidades de ferro.” Mesmo assim, diz-se feliz. Deixa Ipanema ao meio-dia e chega a Sorocaba, onde pernoita.

A esperada visita ela a faz em Capivari, no dia 12, onde  está um Engenho Central que pretende revolucionar a indústria açucareira em São Paulo, criado por Monsieur Raffard. Do engenho, nascerá a futura cidade de Rafard. Mas a Princesa Isabel não se entusiasma: “Engenho muito grande, muito boas máquinas (…) entretanto, creio o de Lorena melhor como simplificação para o trabalho.

Em Capivari, a Princesa Isabel recebe, de Madame Raffard, “um ramo de lindas flores, digno de Paris e grande como meu chapéu de sol aberto.” Parte às duas horas e, às três, chega a Piracicaba. Nesta cidade, hospeda-se na casa do Barão de Serra Negra, Estêvão de Rezende, faz visitas: “ida ao Salto (quiosque) de que gostei muito, visita à fábrica de bordados e à fábrica de fiação do Queiroz (Luiz de Queiroz).” E deixa registrada sua opinião sobre Piracicaba: “Uma cidade bonitinha, com ruas muito bem alinhadas, e muito bem situadas numa colina, e à beira do belo rio do mesmo nome.”

Princesa Isabel e seu pai Dom Pedro II

Saindo de Piracicaba às seis horas da manhã, chega a Itu “às dez e meia, parando o trem um pouco antes, para que víssemos o Salto do Tietê, de que gostei  muito.”  Itu será um dos berços da República, mas recebera o título de  “A Fidelíssima”, por seu apoio à família real e à monarquia. A Princesa visita a Matriz, onde reconhece “um órgão novo, da casa Cavallieri-Coll de Paris”, lamenta-se de não ouvir o canto da já velha  “D. Maria Augusta que o bom vigário diz ter o talento de chocar o sistema nervoso com sua magnífica voz.”

É um programa de visitas cansativo: à Câmara Municipal, almoço com  um dos proprietários da Estrada de Ferro Ituana, José Elias Pacheco Jordão, Colégio dos Jesuítas, Santa Casa de Misericórdia, Colégio das Irmãs de São José. E, ao entardecer, saindo de Itu “às três horas menos um quarto”, chega a Campinas “antes das seis”.

O bosque dos jequitibás

Em Campinas, no dia 14, a Princesa Isabel, entre outras visitas, encanta-se com o Bosque dos Jequitibás: “Vi o maior jequitibá que tenho visto, um tronco esplendido e bonita copa. Tem de diâmetro dois metros e trinta e dois centímetros, na altura de metro e meio, pouco mais ou menos.” O cansaço se torna perceptível em suas anotações. Há apenas referências ao  Colégio Culto a Ciência, rápidas pinceladas a respeito da Santa Casa, da Câmara Municipal.

A viagem pelo interior vai chegando ao fim. No dia 15 de novembro, chega à fazenda de seu principal acompanhante e anfitrião em São Paulo, o Conde Três Rios, em Santa Gertrudes. Lá, estão “os cafezais mais belos que tenho visto”, numa fazenda “onde de tudo há: gado vacum, porcada, patos, marrecos, perus, cabritos, feijão, milho, arroz, frutas e até um açude com peixes.”

No dia 16, um domingo, descansa, assiste à missa “na capelinha da fazenda”, e, pela manhã do dia 17, embarca para o ponto final da viagem: a fazenda do Senador Vergueiro, a famosa Ibicaba, localizada na atual Limeira e fazendo divisa com Piracicaba. Ibicaba é uma das principais experiências rurais brasileiras do Império, originária da sesmaria Morro Azul. Mas a Princesa Isabel parece mau humorada. Antes de retornar a São Paulo, registra:
“A terra, aqui tão boa para o café, é chamada de terra roxa. É excelente para plantações, mas terrível para os entess humanos. O colarinho, que se põe d e manhã limpo, à noite está amarelo, se não chove. Se chove, tudo escorrega e gruda nos pés e nas rodas dos carros.”  Para ela, a fazenda do Senador Vergueiro, “Ibicaba tem muita nomeada e merecida”, mas conclui: “a (fazenda) do (Barão)  Três Rios é melhor.”

No dia 27 de novembro, depois de passar alguns dias em São Paulo, a Princesa Isabel encerra sua visita aos caipiras, embarcando, em Santos, no navio “Rio de Janeiro”, retornando à Corte.

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