Crenças da Quaresma e orações caipiras da Semana Santa

Ainda que não mais preceituado pela Igreja, o jejum, às sextas-feiras da Quaresma, ainda é mantido por muitas famílias da zona rural paulista, especialmente no Vale do Tietê Médio e no Vale do Paraíba. Quando não o jejum completo, a abstinência de carne e de atividade sexual. A relação com a carne é tida como desrespeito quase sacrílego ao Corpo de Deus.

O canto do galo é outra crença marcante. Durante a Quaresma, após o canto do galo às quatro horas da madrugada e até o alvorecer não se deve sair de casa. Conforme a crença, essa é a hora de as almas penadas saírem de onde se encontram. Isso se deve à importância do galo na vida rural, que é como que o relógio noturno. O galo canta pela primeira vez à uma hora; depois, às duas; em seguida, às três. A partir das quatro, o canto é intermitente. Logo, o mistério da noite se acentua. (V. abaixo, Folclore do Galo.)

Durante muito tempo, havia o “rebentar da Aleluia”, quando os sinos das igrejas tocavam às 10 hs da manhã do sábado, anunciando a Ressurreição. Nesse horário e durante o toque dos sinos, as pessoas tinham que lavar os olhos, pois “a luz da Ressurreição” poderia cegá-las.

As rádios não deviam tocar músicas a não ser clássicas e fúnebres às sextas-feiras santas. Durante toda a Quaresma, era proibido realizar festas, comemorar aniversários, freqüentar bailes. As roupas, para refletir o espírito de luto dos fiéis, tinham que ter algum componente de cor roxa. Na “Procissão do Encontro” – significando o encontro de Nossa Senhora com seu Filho condenado à Cruz – as famílias deveriam ir às ruas, levando velas acesas. A mulher com melhor voz da cidade representava a “Verônica”, com seus gritos lancinantes durante a procissão.

Oração caipira da Semana Santa

Um dos principais atos religiosos das comemorações caipiras da Semana Santa estava nas “Recomenda de Almas”. Tratava-se da maneira ruralista de “encomendação das almas dos defuntos” que assumia características como que teatrais durante a Quaresma. Nesta, em especial na região de Tatuí(SP), havia a “Recomenda” todas as quartas e sextas-feiras. Eram grupos de homens festidos normalmente, alguns com mantos ou cobertores na cabeça, que percorriam a cidade. Um deles, com cacete nas mãos, espantava cães vagabundos ou enfrentava cães de guarda, batendo às portas das casas quando viam luzes acesas ou sons de conversas.

Durante a Semana Santa, fazia-se uma via-sacra com orações próprias para cada dia, de segunda a sexta:

“Segunda feira santa, Nossa Senhora tá cum seu filho preso, bendito sejais, bendito sejais.” E o estribilho: “Bendito Sejais, Nossa Senhora das Dores, rodeada dos anjo, coroa de frores.”

Nos dias seguintes: na terça, “Nossa Senhora tá cum seu filho nos braço”; na quarta, “Nossa Senhora tá cum seu filho doente”; na quinta, “Nossa Senhora tá cum seu filho morto”; na sexta, “Nossa Senhora tá cum seu filho sepurtado”. E, finalmente, o sábado de Aleluia: “Sáudo de Aleluia, Nossa Senhora tá cum seu filio que subiu pro céu, bendito sejais.”

Folclore do galo

Também no Brasil o galo é a ave em torno da qual há mais lendas, superstições e crenças. É ave mitológica e suas relações com o homem se perdem no tempo. Na mitologia greco-romana, o galo foi consagrado a Marte. E se diz que a esperteza do galo se deu pelo fato de Marte tê-lo encontrado nos braços de Vênus. A partir do flagrante, teria ficado sempre vigilante.

Galo tem o simbolismo de aurora, de alvorecer, também entre os caipiras. Galo, na zona rural, é tratado como rei. Antes de ser galo, galo foi pinto. E, antes de ser pinto, foi ovo. Por isso, os ovos da galinha não devem ser chocados em mês que haja trovoada, pois esta faz ovo gorar. Reza-se para Santa Bárbara para que não troveja enquanto os ovos são chocados. E, se alguém quiser um “Galo Músico” – aquele com canto mais longo do que os demais – deve-se deitar a galinha choca no dia 4 de dezembro, que é o dia de Santa Bárbara para que, 21 dias depois, no dia de Natal, o galo nasça junto com o Deus-Menino.

À noite, se o galo cantar fora de hora, os pais de moças solteiras devem ficar atentos: significa que elas estão pulando a janela para ter encontros clandestinos.

Se criança costuma fazer xixi na cama, basta dar-lhe, para comer, crista de galo bem torradinha. E, quando estiver adolescente, se a barba do menino custar a aparecer, basta passar um pouco de titica de galo que a questão se resolve.

Em questões de beleza, sexualidade: moça namoradeira é “galinha”; moço com muita atividade sexual é “galo”; rapaz namorando mulher mais velha é “frango metido a galo”; namoro muito avançado é “galinhagem” e mulher com rugas tem “pés de galinha”.

1 comentário

  1. Heffernan em 28/03/2013 às 23:37

    Na nossa região tambem faz as rezas na zona rural a noite, no municipio de campinaverde-MG

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