Enquanto os adultos descansam…

Seria loucura, em pleno Carnaval, escrever sobre a nossa absurdidade humana. O cronista precisa aprender com os ancestrais, muito mais sábios, que seguiam o ritmo das coisas, do tempo, da natureza, até mesmo o ritmo hormonal dos corpos humanos. Basta notar: não parece que Terra e Lua vivem ciclos femininos diante do machismo absolutista do Sol? Só ele fica imponente, como que imóvel em sua realeza. Tudo o mais é cíclico. O ser humano é cíclico. Mas isso é conversa de mesa de bar.

E a filosofia de botequim está morrendo. Em Dublin, há a mesa do bar onde Joyce escrevia. Em Paris, bares de Proust, de Flaubert, todo o “Quartier Latin” onde aconteceu o existencialismo de Sartre, de Simone de Beauvoir, da musa Juliette Grecco. Em Havana, está o boteco de Hemingway onde, bebendo “mojitos”, ele escreveu “O Velho e o Mar” e ganhou o Nobel. Em São Paulo, o Pari Bar, onde se reuniam Sérgio Milliet, os intelectuais da “geração piracicabana” do “Estadão”. Na esquina da São João com Ipiranga, imperava o “Brahma”, com seus poetas, boêmios, artistas. E, na mesma Ipiranga, num boteco, Adoniram Barbosa, contrariando Vinicius, mostrou que São Paulo, em vez de túmulo do samba, era uma catedral. Então, nasceu “O Trem das Onze”. No Rio, há o bar de Pixinguinha, o Café Nice de Noel Rosa, de Donga, a “Garota de Ipanema”. . E, em Piracicaba, existiram a “Baiana”, o “Tanaka”, o “Giocondo”, morreu também “A Brasserie”…

Em Carnaval, escreve-se de Carnaval, mesmo que já não se façam mais carnavais como antigamente. Carnaval não é para descansar, mas para celebrar a síntese de uma festa pagã e cristã. Quem diria pudesse haver um encontro entre o egípcio Osíris, o grego Dioniso, o romano Baco e o judeu Jesus? Pois aconteceu. Tudo se misturou, pois a alegria é impossível de ser contida. Para os cristãos é véspera da Quaresma, antecedendo Paixão, Morte e Ressurreição. Eram as Saturnais dos gregos, as Lupercais dos romanos em homenagem a Pã, do perigoso e divertido Pã? Onde houver pandemônio, onde houver pânico – lá está Pã. Viver pode ser engraçado. .

A humanidade perdeu a graça. Basta ver o cansaço das pessoas no Carnaval. Trocou-se a festa pelo velório. Dando razão a Vieira – “o mar vai virar sertão, o sertão vai virar mar” – Carnaval virou Quaresma e, na Quaresma, é Carnaval. Quando o ritmo da vida se altera, desquilibra-se tudo. Não há Páscoa se, antes, não houver Carnaval. Nem ressurreição se, antes, não tiver havido morte.

Carnaval é, também, celebração, o reconhecimento da carne, das paixões humanas. Ora, se os moralistas insistem em punir a carne, como puni-la se ela não tiver palpitado, se tiver morta? Sem Carnaval, não há sequer as cinzas da quarta-feira dos penitentes. Se não há de quê se arrepender, por que a penitência? As pessoas parecem com preguiça até mesmo de serem humanas.

Outro dia, uma já amadurecida mulher me perguntou, quase com timidez, quem e como eram Arlequim, Colombina, Pierrô. Respondi, perguntando se ela conhecia uma canção que fala assim: “Um Pierrô apaixonado/ que vivia só cantando/ por causa de uma Colombina/ acabou chorando, acabou chorando.” Fiquei com pena. Ela nunca ouvira. E, portanto, não vivera. Pois as canções dos velhos carnavais contam a bela e dolorida história dos corações humanos.

No ritmo da vida, teremos três dias para pensar nisso. Enquanto os adultos descansam. Com saudade, talvez? Bom dia.

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