Agosto: o mais difamado dos meses

Agosto é o mês do folclore. E, ao mesmo tempo, é o mais difamado dos meses, em todo o mundo e, especialmente, entre os latinos. Mês de assombração, de azares, de infelicidade, de coisas horríveis que acontecem para as pessoas. É, pelo menos, o que diz o folclore. E é no que a maioria das pessoas acredita. Tanto assim que muitas seguem à risca os conselhos de agosto: não casar, não fazer negócios, não mudar de casa. Quem quiser não acredite. Mas que as bruxas existem, existem…

 O que é folclore

O folclore brasileiro é um dos mais ricos do mundo. E, por folclore, pode-se entender o “conjunto das tradições, conhecimentos ou crenças populares expressas em provérbios, contos ou canções”, ou o estudo e o conhecimento deles. O folclore de um povo supõe um patrimônio popular já existente – que se veicula especialmente de forma oral – ou pela descrição desse material através de estudiosos. Nesse sentido, folclore é uma ciência.

Sendo um país de regiões com cultura e hábitos diferentes uns dos outros, a riqueza do folclore brasileira se deve justamente a essa variedade de tradições populares. Elas se refletem em danças, festas, superstições, comidas, celebrações, obras de arte, comemorações e representações que, em todo o País, revelam a nossa cultura.

Durante algum tempo e em virtude da industrialização descontrolada, o Sul e o Sudeste brasileiros viram as suas tradições serem contaminadas por uma visão prática de vida. Atualmente, há um processo de recuperação dessa cultura. Por outro lado, toda essa riqueza cultural se mantém viva no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste do Brasil.

 Agosto, desgosto

Entre os latinos, os azares de agosto sempre foram levados em conta. Na Argentina, que anda complicada política e economicamente, o temor por agosto sempre existiu, conforme anotou Câmara Cascudo. Se a situação está complicada para os nossos vizinhos, é bom que eles se acautelem pois até mesmo um grande estudioso da cultura popular argentina, Rafael Jijena Sánchez, anotava o perigo até nos pequenos gestos: “No lavarse la cabeza em el mês de agosto porque se llama a la muerte.” Se até lavar a cabeça atrai a morte, imagine-se, por exemplo, passar debaixo de uma escada…

No Brasil, como a Primeira Guerra Mundial eclodiu no dia 1ª de agosto de 1914, a superstição foi levada ainda mais a sério. Uns versos do “Correio da Manhã”, do Rio de Janeiro,  transformaram-se em modinha que começava assim: “Mês terrível, funesto mês de agosto/ Mês de desgosto, mês trágico e fatal!/ Soou pelo espaço o tom de guerra/ Corre na terra sangue em caudal.”

A guerra fortaleceu a má fama de agosto. E essa tradição aziaga, na área política brasileira, veio a se justificar em meados do Século XX: no dia 24 de agosto de 1954, o presidente Getúlio Vargas suicidou-se; no dia 25 de agosto de 1961, o presidente Jânio Quadros renunciou.

 Mais azares

Mais azares confirmando o desprestígio de agosto entre os meses do ano: em 1ª de agosto de 1822, D.Pedro I ordenou que o Brasil se preparasse para, se necessário, guerrear contra Portugal; e, para o mesmo D.Pedro I, há um outro azar de agosto: em 2 desse mês, em 1829, ele se casa com D.Amélia…; o grande músico e sanfoneiro Luiz Gonzaga morreu em 2 de agosto de 1989; guerra contra os holandeses no Monte das Tabocas, em 3 de agosto de 1645; surgimento do “sebastianismo”, com a morte de D.Sebastião em Alcácer Quibir, em 4 de agosto de 1578; morte do notável compositor Sinhô, em 4 de agosto de 1953; segundo incêndio do Teatro São Pedro, no Rio, em 9 de agosto de 1851.

E até Carlos Drummond de Andrade, o poeta inesquecível, foi vítima de agosto: em 1987, dia 17. Além do que, convém lembrar, “agosto é mês de cachorro louco…”

 Para enfrentar o azar

Mas se, no folclore brasileiro, o azar é reconhecido como coisa do qual não se foge, há, também, como se prevenir dele ou como enfrentá-lo. Em agosto, é bom, como se faz no interior de São Paulo, aumentar a devoção a Santo Antônio, adquirindo os “santo-antoninhos” de pau, de barro, de cera ou simples estatuetas. Para exigir que Santo Antônio dê sua proteção ao longo do mês de agosto, deve-se tirar o menino Jesus do colo dele e só devolver se nada de ruim ocorrer até o final do mês. À primeira contrariedade, deve-se virar a estatueta de Santo Antônio de cabeça para baixo. Imprescindível, também, é repetir o “responso” algumas vezes:

“quem milagres quer achar/ contra males e o demônio/ busque logo a Santo Antônio/ que aí o há de encontrar.”

Oportunos e necessários são, também, os conselhos de Santo Onofre e as orações de São Cipriano. Aliás, as mágicas de São Cipriano são consideradas muito eficientes para o mês de agosto, podendo-se encontrá-las em seu famoso e tradicional livro negro. A oração a São Cipriano é, popularmente, tida como de fundamental importância contra malefícios, feitiçaria, mau olhado, sortilégios e macumbas, práticas comuns no mês de agosto. Quanto às magias, as mais conhecidas de São Cipriano são as do sapo preto e dos olhos do sapo. Há, também, a do gato preto, do cão preto, da pomba preta, do mocho, da coruja, dos ovos de formiga.

Quem quiser acreditar acredite. Os portugueses, porém, quando se aproxima o mês de agosto, já se previnem: “Aí vem agosto, com seus santos no pescoço…” – dizem eles, sabendo do que estão falando.

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