O sal, sempre sagrado.

O povo fala que, para se conhecer alguém, é preciso “comer um saco de sal com ele”. O sal está na memória dos povos desde a mais remota antigüidade, como símbolo de alimento, de vida, de memória. A versão francesa diz que é preciso comer um “muid” de sal. O “muid” francês é equivalente ao “moio” dos portugueses, ambos significando “duzentos e quarenta litros de sal”. Comer todo esse sal tinha o significado de eternidade.

Cristo fez, do sal, o sentido da missão de seus apóstolos: “Vós sois o sal da vida.” No batismo católico, o sal é sabedoria. No “Levítico” (II,13), do Velho Testamento, já havia a santificação do sal: “… em toda a tua oferta, oferecerás sal.” Entre os antigos escravos africanos, quando intimados a se declararem cristãos, eles apenas diziam: “comi sal.” Na Roma e na Grécia antiga, o sal valia como graça e como desgraça: de pessoas graciosas, dizia-se – e diz-se, ainda – que “tinham sal”; mas cobria-se de sal o chão das casas dos condenados. Isso aconteceu também no Brasil: foi coberto de sal o chão da residência de Tiradentes, tornando-o maldito.

Leonardo da Vinci, no quadro “A Santa Ceia”, confirma o sal como símbolo da amizade. Por isso, o saleiro, na tela, está derramado na mesa, diante de Judas, o apóstolo que traiu a amizade. Antes de Cristo, as crianças, ao nascer, eram “salgadas”, esfregadas com sal para que tivessem mais vida. Os “zumbis” de todas as civilizações têm medo de sal.

É maior do que se imagina a importância do sal na vida das pessoas – incluindo o sal usado nos feitiços das macumbas, dos candomblés, dos catimbós, no cotidiano familiar. Tanto assim é que uma das palavras mais fortes na vida universal – criando ciência, ideologia e confusão econômica – tem a sua origem no sal: é salário, “salarium”. Os romanos pagavam, aos soldados, o “salarium”, a quantia necessária para comprar o sal necessário à alimentação. A partir dali, o “salarium” passou a ser o pagamento obrigatório a qualquer trabalho.

Em todos os tempos, pois, o sal é sagrado.

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