Como os desbravadores viram Piracicaba (1769/71)

Entre 1769 e 1771, uma expedição partiu do Porto de Araritaguaba, atual Porto Feliz, em direção à Praça de Nossa Senhora dos Prazeres de Iguatemi, no atual Estado de Mato Grosso do Sul, onde havia o forte de resistência a invasores. Composta por 36 embarcações e quase 800 homens, mulheres e crianças, o relato da expedição foi registrado por Teotônio José Juzarte, escolhido por Morgado de Mateus para comando do grupo.

O “Diário de Navegação” foi publicado pela coleção “USPIANA Brasil 500 Anos” 1, da qual reproduzimos um pequeno trecho, que fala justamente sobre a passagem do grupo pela região de Piracicaba:

… “17 de abril – Amanhecendo este dia, pelas seis horas e meia da manhã, embarcou tudo, e seguindo viagem navegamos até a barra do rio Piracicaba, à qual chegamos às onze e meia da manhã, e aí achamos Antonio Barbosa, diretor de uma povoação situada para as cabeceiras deste rio o qual tinha descido por ele abaixo a encontrar-nos no dito rio Tietê; defronte desta barra do Piracicaba embicamos para fazer pouso, navegando esta manhã por tempo de cinco horas nas quais andamos cinco léguas e meia: pousamos defronte a dita barra cuja é larga, e bastantemente cheia de águas, sobe rumo ao nordeste, e aqui falhamos a tarde do dia dezessete; logo desembarcou tudo para terra, e saíram muitos homens a caçar por aqueles matos onde se perdeu um soldado dos trinta que me acompanhavam, o qual entranhando-se pelos matos se perdeu, achando-se falta deste camarada já quase Ave-Marias, se mandaram pelos matos alguns práticos, e pelo rio um batelão atirando uns e outros tiros para que soubessem os do rio e os de terra, ouvindo as salvas, em que altura ficavam uns dos outros; e, com efeito, sendo já oito horas da noite ouviram que o soldado gritava, acudindo para aquela parte deram com ele trepado sobre uma árvore sem saber em que parte estava, e disposto a ficar a morrer naquele sertão; contou que o motivo de trepar naquela árvore fora um grande número de porcos-do-mato que com violenta carreira se encaminhavam para ele, aos quais seguia e perseguia uma onça de extraordinária grandeza, que à vista disso se salvou em cima daquela árvore para passar ali a noite até o dia seguinte para então ver se acertava com o lugar onde ficavam as embarcações; recolheram-se estes homens trazendo consigo o perdido, e aqui ficamos neste pouso a noite do dia dezessete para o dia dezoito….”

– “Dia 18 …Amanhecendo este dia, me embarquei em uma canoinha com sete homens com suas armas, e saí rio abaixo ficando toda a expedição no dito pouso, e navegando duas voltas grandes do rio achei na parte esquerda um ribeirão e entrando por ele acima a bastante distância achamos um grande campo, no qual fica o morro de Araraquara-mirim, e subindo por ele acima, o que custou muito por ser escabroso e escalvado, chegamos sobre a sua coroa, a qual tem muitas cortaduras; e aí fiz ponto fixo, que fica o dito morro ao rumo do noroeste, e deste ponto fixo sobre a coroa do dito morro se acha à distância de dez léguas do rumo de leste os morros de Piracicaba, ou quase tudo campanha, porém agreste e com pouco préstimo; e dali correndo a procurar o rumo de lés-nordeste, à distância de quatro léguas pouco mais ou menos da parte esquerda do rio Tietê, se acha o famoso morro de Araraquara-guaçu que dizem ter muitos haveres…”

1 Diário de Navegação, organização de Jonas Soares de Souza e Myoko Makino. São Paulo, USP/Imprensa Oficial, 2000. Reprodução: “Diário de Navegação”

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