Luiz de Queiroz: as ruínas da fazenda São João da Montanha antes de ser ESALQ

Um documento passou a ser prova das agruras, dificuldades e decepções que Luiz Vicente de Souza Queiroz, hoje imortalizado, conheceu para realizar o seu sonho de uma Escola Agrícola. A sua fazenda, atual ESALQ, estava em ruínas. Doada ao governo do Estado por Luiz de Queiroz, em 1892, para que se ali se instalasse uma escolade agronomia – que começaria a tomar forma apenas em 1901 – a Fazenda São João da Montanha foi objeto, por vários anos, de relatos detalhados de sua administração. O primeiro deles, datado de 1893, é assinado por Ernst Lehmann, administrador designado para responder pela Fazenda e vice-diretor do Instituto Agronômico de Campinas.

Encaminhado a Jorge Tibiriçá, secretário de Negócios da Agricultura do Estado , o relato dá conta das condições precárias em que se encontrava a propriedade, exigindo, para sua recuperação e eventual geração de renda, dotações de verbas de significativo impacto. Mas também demonstra que o próprio Estado ainda não se dispunha a grandes investimentos, como diz o administrador:

” a introdução da lavoura de cana com colonos, para levar a Fazenda à produção duma renda, não foi praticável, porque a isto se opuseram os fins a que ela se destina, e bem assim a absoluta falta de capital e preparações. Experiências científicas não foram intentadas em maior escala em vista de saber-se de sua futura separação do Instituto. Uma continuação das construções escolares teria exigido recursos consideráveis, que não existiam”.

E mais: como o próprio Lehmann diz, nos primeiros quatro meses de sua administração, ainda houve esperança de continuar com as obras do Sr. Queiroz, mas sem que fossem liberados recursos pela instalação de uma escola futura, até mesmo o número de trabalhadores teve que ser drasticamente reduzido: dos 60 contratados em outubro de 1892, sobraram apenas 10 em novembro do ano seguinte. Assim, pouco do que fora deixado originalmente por Luiz de Queiroz pôde ser aproveitado pelo Estado.

As descrições são de uma propriedade quase abandonada, como é possível se perceber: “na casa da administração limitei-me a consertos de reboco, caiação, pintura das portas e janelas, instalação de esteios para evitar a queda das paredes; o paiol estava arruinado e o conserto é absolutamente impossível, pois toda a madeira está podre e as paredes mostram rachas; das 16 casas apenas 8 ainda podem ser habitadas; o teto do engenho velho havia caído; o moinho de milho acha-se numa construção antiga que não admite mais consertos”. Com relação às casas dos colonos, a situação era tão grave que afetava as condições de higiene, envolvendo as próprias habitações e os terrenos que as cercavam. O administrador admite que houve casos de febre perniciosos, inclusive com uma morte. Mas os problemas não paravam por aí. Com a estação das chuvas, a ponte de madeira sobre o Ribeirão Itapeva, que garantia a comunicação com a cidade, desmoronou. A reconstrução, feita pelo administrador com pedras e tijolos, acabou beneficiando também os vizinhos da Fazenda. A rede de encanamento, segundo Leihmann, funcionou por apenas um dia: “uma inspeção me fez ver que se achavam em estado desolador, que tinha buracos e que estavam cheios de areia por quase todo o percurso”.

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