A carta-testamento do prefeito Cássio Paschoal Padovani

Cássio Paschoal Padovani foi uma das respeitáveis personalidades públicas de Piracicaba. Sua trajetória, mais do que política, foi de serviços à comunidade, sendo marcante a sua passagem por cargos e instituições, entre as quais a presidência da Associação Comercial e Industrial de Piracicaba e a Cipatel (Companhia Telefônica Piracicabana), considerada, quando de sua instalação, uma das mais organizadas do País.

Companheiro de chapa de Francisco Salgot Castillon, na eleição municipal de 1968, Cássio Padovani chegou à vice-Prefeitura em tempos de grave crise política nacional. A vitória de Salgot Castillon desagradara os militares, ainda que este tivesse sido membro ativo da UDN e presidente da ARENA. Em Piracicaba, a revolução andou na contramão: o MDB apoiou o governo militar, a ARENA dividiu-se. E Salgot Castillon foi cassado pelo AI-5, tendo havido sérias dificuldades para Cássio Padovani, como viceprefeito, assumir o cargo que lhe era devido constitucionalmente.

Assumindo, Cássio Padovani precisou suportar a gravidade da crise política que, em Piracicaba, se acentuava em virtude das divergências ácidas e irreconciliáveis em nível municipal. A recompensa e o preço pago por Cássio Paschoal Padovani foram o comprometimento de sua saúde. Gravemente enfermo, não resistiu a uma segunda cirurgia cardíaca, no Hospital da Beneficência Portuguesa, falecendo no dia 7 de março de 1972, completando-se, pois 35 anos de sua morte neste ano de 2007. O Prefeito previu a sua própria morte. A família, dois dias após o sepultamento, encontrou, na valise que Cássio Padovani levara ao hospital, uma carta que se tornou, historicamente, a carta-testamento daquele que foi um dos mais íntegros homens públicos piracicabanos em todos os tempos. A vida pública de Cássio Padovani, servindo de referencial como político, é um contraste com o que temos visto nestes tempos atuais.

A carta-testamento

Por deferência da família Padovani, o jornal “O Diário” foi o único veículo de comunicação a publicar o documento, no dia 10 de março de 1972, cuja íntegra é a seguinte:

“Tenho sentido o agravamento do meu estado de saúde. Meu desejo seria viver, viver por muitos e muitos anos. Ver os frutos dessa administração em que tentamos instituir o Plano de Desenvolvimento Local Integrado. Ver, ainda, as filhas na plenitude da independência, ou casadas com a vida de trabalho estabilizada. Desejaria, ainda, concluir o mandato com mais alguma cousa feita à pobreza ou à massa trabalhadora.

Entretanto, percebo que o coração pulsa diferentemente. Os rins, que me transformaram as costas numa verdadeira tábua, já não mais me perturbam, mas o fígado que o “olho clínico” do dr. Ramos desejava punctá-lo, ele já me faz senti-lo e achá-lo inchado. Acertei na providência porque, com a punção, os efeitos seriam antecipados. Se me advir a morte, quero que todos recebam esse evento com naturalidade, certos de que lutei e sucumbo satisfeito. Mais não poderia fazer. Tive amigos e inimigos. Dos amigos, recebi compreensão e lhes agradeço; dos inimigos, eu os tenho como fato natural. Não os perdôo por não lhes reconhecer justiça, apenas os desconheço.

À minha mulher e às minhas filhas e aos meus irmãos, expresso a alegria de tê-los. Eu os compreendi e senti a recíproca. Peço-lhes que continuem com a mesma nossa filosofia de vida. De meu pai, guardo muito dó, porque foi um homem de luta que morreu antes de ver os resultados. Minha mãe foi mais além e viu quase todos os frutos do seu admirável sacrifício. Se me visse advogado, estaria completamente realizada. Se me visse prefeito, atendendo a pobreza, exultaria.

Que ninguém queira glorificar o morto. Uma tumba humilde é meu desejo e minha paga. Na administração, todo aquele que olhar para a pobreza, para a infância desvalida fará o que mais me agradaria. Cássio Paschoal Padovani.”

1 comentário

  1. Linneu Stipp em 11/01/2013 às 15:57

    Ilustres Jornalistas

    Tive no Cassio um grande chefe e amigo, ele fora Contador da Industria de Refrigeração Luiz Guidotti, eu o responsavel pelo escritorio da Loja

    Certa feita fomos de trem até São Paulo encontrar-nos com o Luiz Guidotti e seguirmos para São Caetano do Sul com o objetivo de conseguir financiamento para vendas a prazo das geladeiras Frigidaire.

    Foi um sucesso, passamos a vender todos os meses a cota de 25 geladeiras, com juros e encargos baixissimos, o que favoreceu uma imensidão de familias…

    Quando pretendi ir morar em São Paulo para continuar os estudos, o Cassio indicou-me para o Melhem William Maluf, um dos piracicabanos acionistas de uma construtora paulistana, COGEC..seria o Contador da Empresa, 21 anos de idade, recem formado Tecnico em Contabilidade pela Escola Tecnica de Comercio Ciristovam Colombo…

    Dai para o progresso profissional, aquisição de novos conhecimentos, constituição da famlia, um sucesso.

    Obrigado Amigo Cassio

    Linneu José Libório Stipp

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