Parafuso: o popular cantador de Cururu

Em sua sétima edição, no ano de 1957, a Revista Mirante trouxe uma entrevista com Parafuso – famoso cantador de Cururu.

 O Fenômeno PARAFUSO
Fotos: Cantarelli
Reportagem de Rena

Indiscutivelmente, o nome de maior projeção popular, na cidade, nos dias que correm, é o desse simpático «moreninho» cantador de Cururu – o «Parafuso».

Ninguém consegue explicar corretamente o «porque» de um nome tornar-se, quase da noite para o dia, a atração, a coqueluche, o assunto obrigatório de tôdas as rodinhas. O fato é que, quando menos se espera, ele surge forte, poderoso, onipresente aos nossos olhos e aos nossos ouvidos. Passa a fazer parte de nossa vida diária, intromete-se nos nossos pensamentos e, por que não? conforta-nos e alegra-nos porque passamos a ter um novo ídolo para admirar, embora na maioria dos casos não o conheçamos pessoalmente.

Verdade que há necessidade de meios de difusão para que um nome se projete. Há necessidade de veiculos publicitários para que êle se torne conhecido em círculo cada vez mais amplo. Mas isso tudo, por si só, não basta. São inúmeros os exemplos de artistas, esportistas, políticos, homens de negócios que dispõem de meios de difusão quase diários para seus nomes e, no entanto, não se tornam “populares».

Para ser popular exigem-se qualidades. Sim, as qualidades imprescindíveis de um grande cantor, um concertista excepcional ou um político de valor, o que, todavia, não basta, e não basta porque há exemplos de grandes nomes em todas as atividades e que não são <populares» no exato sentido do têrA faixa é uma homenagem de seus inúmeros fans, que se organizaram e formaram o Fan-Clube Parafusomo.

O têrmo «popular» tem um sentido muito mais amplo. Para que um nome se torne realmente popular é preciso que desperte simpatía, faz-se mister que seja querido de todos – que seja, enfim, amado pelo povo, pelas massas.

Parafuso é popular. E é popular porque possui as duas qualidades essenciais para tal: valor e simpatia.

Parafuso é cantador de Cururú (modalidade de arte folclórica, que consiste em desafios entre dois cantadores, por meio de trovas) e, como cantador de Cururú, é a sensação do momento, o terror dos cantadores que porventura tenham que se defrontar com êle. No entanto, êle não surgiu hoje,como pode parecer à primeira vista. O lugar que agora ocupa, merecidamente foi conquistado com muita perseverança, e sobretudo muito sacrifício e amôr à arte.

É o próprio. Parafuso quem nos conta que deve o seu êxito atual ao fato dêle haver modernizado o seu modo de atuar, isto é, haver criado um estilo novo, original, um estilo humorístico, mais condizente com a própria natureza do Cururú (que deve ser humorístico e não sério).

Para isso, êle conta com sua figura fabulosamente expressiva e o seu «humor» contagiante.

Existe, porém, uma frase mágica inventada por Parafuso, que foi sem dúvida nenhuma o «Abrete Sésam» para o seu sucesso atual. Essa frase faz com que muita gente ligue o rádio somente para Desde que comecei cantar divertindo o público, a coisa melhorou, diz Parafuso. Hoje êle é cartaz.escutá-la.

Trata-se do seu insinuante «slogan»:

– Nem que tussa num faiz má I!!

Através desta reportagem, os leitores poderão ter uma idéia da notável facilidade com que Parafuso improvisa as suas trovas e versos, pois a cada pergunta do repórter, ele ia respondendo imediatamente.

– Onde nasceu?

Fui nascido no Recreio,

Fui criado em Caiapiá.

Quando eu tinha nove anos

O papai mudou pr’a cá.

E pr’a não sê bocó de mola

O papai me pois na escola

P’ra aprendê somá e contá.

– Qual o seu verdadeiro nome?

Por tudo lugá que eu ando

Me chamo Antonio Candido

Meu verdadeiro nome natá.

– Qual a origem dg apelido de Parafuso?

O apelido de Parafuso veio de quando comecei cantá

Porque deixava a gente confuso

Virava roda que nem fuso

Sem tirá o pé do lugá.

Faz muito tempo que canta?

Faz mais ou menos 18 anos

Que comecei a trová

E desde que comecei c’os meus verso

Fiz gente pererecá

E sempre dei batida dura

Aprendi cantá na escritura

Que nóis canta de frente ao artá.

– Por onde tem cantado?

Cantei na Capitar de São Paulo

Que vieram me buscá

P’ra saudá o Quarto Centenário

E peguei o primeiro lugá.

Cantei na Televisão Record,

A Inezita tava lá

E dela ganhei uma viola

E hoje faço o páu quebrá.

Cantei no Rio de Janeiro.

Na Capitar Federá,

Os versinho que eu cantei

Tuda a vida hão de alembrá.

Se as pedra tivesse bôca

Eu fazia as pedra chorá.

– Como inventou o slogan: Nem que tussa num faiz má?

Eu cantei com Zico Moreira

Na noite de Natá

Ele tava tussindo muito

Então não queria cantá.

Eu disse: Cante assim mesmo

Nem que tussa num faiz má.

A família como vai?

Eu sô pai de quinze filhos

Nesta terra nacioná.

Cinco morreu e foi com Deus

Porque a morte veio buscá.

A morte é a coisa mais valente:

Ela chega de repente

Leva a alma da gente

E mata sem esperá.

Eu tenho déis filhinho vivo

E preciso labutá

Para o pão de cada dia

Pr’os pretinho não fartá.

Naquela fotografia

Dois deles não tava lá:

Foram na casa da avó

Porque a avó mandou chamá.

 – Canta como amador ou profissional?

Um tempo fui amadô,

pr’este povo vou contá,

Mas hoje peguei mais valô

E sou profissioná,

Porque não pode mais sê amadô

Quem canta p’ra ganhá.

– Qual uma passagem interessante de sua vida?

A esta pergunta Parafuso responde fazendo versos.

Um dia de tardezinha

Tive muito aborrecido

Então eu fiz uma popsia

Pr’a ficá mais distraido.

Vim eu e Pedro Chiquito

Um dia de Laraujá

Cantil cururu em Piracicaba

Que já tinha cantado por lá.

Por aqui cheguêmo tarde

O festeiro veio encontrá

Si nóis chegasse mais cedo

Ele dava. de jantá.

Quando ele falou assim

A barriga do Chiquito começou a roncá

E na rua Governadô

Nóis peguemo e entremo num bar.

Era um bar de um japoneis,

Tinha peixe e não tínha pão,

Chiquito entrou no bar

Batendo duro no balcão.

O moço contou o caso

Que tinha peixe e não tinha pão,

Deu uma cesta p’rá Chiquito

Vá comprá uma porção.

Chiquito sai correndo

Que nem tinha cumparação

E em prazo de dois minutos

Correu Quinze quarteirão.

E entrou numa farmacia

Perguntou si tinha pão,

O farmacêutico cum dó dele

Lhe ensinou a padaria

Chiquito voltou p’ra traiz

E até mudou a fisionomia.

E quando chegou no bar

O patricio chegou cansado

Eu tava cumendo peixe

Num ha de vê que fiquei engasgado?

Num falei nada a ninguém

P’ra num falá que sou esganado

Mais Imaginava na hora da cantoria

Quanto mais eu forcejava

Mais a garganta doia.

Mas tinha Pedro Chiquito

Que p’ra ajudá era um colosso

E na hora de fazer o baixão

Comecei a torcer o pescoço.

O espinho saiu da garganta

E deu na testa do môço.Felicio Candido e Lazara Maria de Jesús, pais de Parafuso. Êle com 105 anos e ela com 75 mais ou menos.

Foi que nem uma bordoada

Que fêz levantar caroço.

Nisso surge uma briga

No meio dos cururuêro:

O Snr. Luiz Gonzaga

Brigou com o Chico Barbêro

Mas não aconteceu nada

O povo apartou ligêro.

Chiquito assustou muito

Quando viu aquele tropé

Virou e falou p’ra. mim:

Vamo chamá no pé?

E saiu correndo

Sem saber o que é

Caiu com o corpo inteiro

No colo de uma muié.

Dentro de Piracicaba

Andemo o dia intêro

P’ra achá Pedro Chiquito

Dormindo dentro de um boêro.

– A que atribue o seu grande sucesso atual como cantador?

Um tempo eu cantava firme

Os cantadô eram mais apagado.

Comecei cum brincadêra

A coisa ficou animado

Porque eu ponho fogo na bodéga

Nem que o chão teja moiado.

Também modifiquei minha toada

Cantando com treis dobrado.

E faço andá quem tá de pé

E levantá quem tá deitado.

O Parafuso na estação

Quando eu dô meu balançado

Eu já faço o povo vibrá

Antes de cantá trovado.

– Quais são seus maiores adversários?

Os adversario mais duro

Que encontrei p’ra cantá

Zico Moreira de Sorocaba

Portuguêis duro de amá.

E o velho João David

Que nasceu em Tatuí

E foi criado em Laranjá.

E também Pedro Chiquito

Patricio que sabe cantá,

Tudo êles cantam bem

E não são de facilitá.

Mas quando encontram c’o pretinho

Tem que pisá devagá

Porque eu canto divertindo o povo

e faço o povo gostá.

Eu tando junto c’o povo

Eu faço cantadô disnorteá.

Se o cobra não gosta de fumo

Eu faço a cobra fumá:

E terminando este meu verso

Eu dô um viva em gerá

A minha grande Piracicaba

Onde os parafusinho tã.

Adeus, Adeus meu rico povo,

e … Nem que tussa num faiz má!!! ”

FIM

3 comentários

  1. antonio cesar fernandes em 27/03/2014 às 20:55

    Pena não ter comhecido este grande cururueiro!

    • paulo roberto candido em 04/08/2014 às 06:50

      bom dia amigo valeu por ter feito essa materia q nem eu q sou o filho mais novo dele nao o conheci eu tinha um ano quando elemorreu ob valeu

      • Amanda Moreno em 07/06/2015 às 19:12

        Paulo, boa noite, eu me chamo Amanda , acredito ter informações sobre um de seus irmãos, gostaria de entrar em contato com você por email se for possível. Obrigada.

Deixe um comentário