Salão de Humor, como e porquê

A história do Salão de Humor tem sido mal-contada, ao sabor dos interesses políticos. Há documentos na imprensa piracicabana que desmentem essa história “oficial”. O Salão de Humor nasceu de duas pessoas: do então bancário (Banespa) Roberto Antônio Cera e do artista plástico Ermelindo Nardin. Na redação de “O Diário”, as coisas aconteceram. A idéia foi de Ermelindo Nardin, que tinha, em 1972, criado o Salão de Arte Contemporânea (SAC) e pretendia inovar com o humor, indo até o Rio de Janeiro conversar com os jornalistas do “Pasquim”. Em seguida, por questões circunstanciais, aconteceu a operacionalização do Salão.

Pretendendo ser um registro também histórico, o “Memorial de Piracicaba” – Almanaque 2000 registra o depoimento de Roberto Antônio Cera, que o autor deste livro avaliza:

“ I Salão de Humor de Piracicaba: os antecedentes

“Em 1971, eu fui nomeado pelo prefeito Cássio Padovani – juntamente com o professor João Chiarini e o artista plástico Ermelindo Nardin – para a comissão do Salão de Arte Contemporânea (SAC). Entrevistado pelo jornal “O Diário”, o Chiarini declarou que o prefeito era insípido, inodoro e incolor. Na mesma semana, eu havia escrito que os algozes que dirigiam Piracicaba não se interessavam pelo término da construção do prédio do Teatro Municipal. Conclusão: fomos destituídos da comissão e o Nardin nos acompanhou, espontaneamente, num gesto de solidariedade.

No ano seguinte, o prefeito Homero Paes Athayde voltou a nos nomear para a comissão do novo Salão de Arte Contemporânea. Foi quando sugeri ao Nardin, que sonhava com a popularização do evento, a criação de um setor dedicado ao desenho de humor, que ocuparia uma das salas do prédio da Pinacoteca.

Eu estava de férias e, com nossos recursos, fomos ao Rio de janeiro, pedir apoio ao pessoal do semanário “O Pasquim”. Quem nos recebeu foi o Jaguar que, inicialmente, não gostou da idéia. Achou que lá estávamos com interesses financeiros e falou que costumava desenhar com caneta hidrográfica, em papel de jornal. Foi quando disse a ele que era justamente isso que desejávamos mostrar: os originais dos desenhos que ele e seus colegas faziam e dar, até mesmo, um caráter didático ao salão. O Jaguar se entusiasmou, prometeu que iria levar a idéia à patota do jornal e pediu que mantivéssemos contato a fim encontrar um meio de recebermos os desenhos. Contou que havia encaminhado à revista “Realidade” vários desenhos coloridos e datilografou, em uma folha de papel da empresa, um bilhete dirigido a uma pessoa chamada Milton, da Editora Abril, consultando se ele poderia ceder “aos rapazes de Piracicaba” os trabalhos, que seriam no Salão. Isso aconteceu exatamente no dia 17 de maio de 1972. O documento encontra-se com o Nardin, que o cedeu ao jornalista Cecílio Elias Neto, e foi publicado em uma reportagem sobre “a verdadeira origem do Salão de Humor”, no semanário “Jornal Liber”, de 24/30 de setembro de 1993.

Infelizmente, a Editora Abril negou-se a nos ceder os desenhos do Jaguar, alegando direitos autorais, e não conseguimos quem fosse buscar os trabalhos no Rio de Janeiro. Por isso, a idéia ficou para um próximo Salão de Arte Contemporânea.

Certa noite, na redação de “O Diário”, li no “Jornal da Tarde” a notícia de que o Mackenzie estava realizando um salão de humor. O Fagundes (Nota do Autor: Luiz Antônio Fagundes) , então coordenador de Turismo da Prefeitura estava ao meu lado e eu disse a ele que já havíamos tentado fazer algo semelhante, anexo ao Salão de Arte Contemporânea, mas não conseguimos. O Fagundes se entusiasmou com a idéia e prometeu que, no próximo ano, reservaria uma verba para também realizarmos um salão. Inclusive, disse que, também, poderia participar, com alguns trabalhos de “fotofofocas”.

Essa minha conversa foi ouvida por um outro colega (Nota do Autor: Alceu Marozzi Righetto) que, após algumas semanas, chegou todo eufórico na redação, contando que já estivera no Rio de Janeiro, com alguns amigos, onde manteve contato com o pessoal de “O Pasquim” e que já conseguira verba para a realização do I Salão de Humor de Piracicaba.. Não adiantou reclamar que a realização desse salão já estava entre os meus projetos.

Só me restou procurar participar do evento à minha maneira. Tive dois trabalhos expostos no I Salão, estive sempre ao lado dos desenhistas de “O Pasquim” que prestigiaram o acontecimento e filmei, em super 8, toda a cerimônia de abertura. Basta ver o filme para sentir a alegria e a liberdade que reinou, em Piracicaba, naquela noite de 1974, que contou até mesmo com a presença da mais alta autoridade militar da cidade, na época, desmentindo a folclórica história de pressões para que o I Salão de Humor não se realizasse e que a diretoria do Clube Coronel Barbosa, com medo, se negou a ceder suas dependências. Mas, isso é assunto para outra conversa… Roberto Antonio Cera. ”

(Nota do Autor: É justa e honesta a versão de que o I Salão de Humor de Piracicaba foi operacionalizado por Alceu Marozzi Righetto, Adolpho Queiroz, Carlos Colonnese, entre outros, todos eles ligados a “O Diário”. Mas a idéia original foi de Roberto Antônio Cera e Ermelindo Nardin, conforme documentos e o testemunho aqui avalizado de Roberto Antônio Cera, o Cerinha. Esse assunto foi exaustivamente publicado tanto pelo jornal “A Província” como pelo jornal “Líber”, conforme a edição de 24 a 30 de setembro de 1933)

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