DESPOJOS DE DOM ERNESTO DE PAULA NA CATEDRAL

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Figura1A urna lacrada contendo os despojos do querido e saudoso Dom Ernesto de Paula, primeiro bispo da Diocese de Piracicaba, foi depositada na sepultura, à direita do altar mor da Catedral de Santo Antonio, por ele idealizada e construída, em belíssima cerimônia, no dia 31 de dezembro de 2012. A cerimônia presidida por Mons. Jamil Nassif Abib, Pároco da Catedral e Vigário Geral da Diocese lembrou também os dezoito anos de sua morte, ocorrida na cidade de São Paulo, em 31 de dezembro de 1994, com a veneranda idade de 95 anos.

Em 1994, Dom Ernesto foi sepultado, conforme seu desejo, na cripta da Catedral da Sé, ao lado dos bispos, arcebispos e cardeais da Igreja Paulistana, e de personalidades da história da Brasil, como o Cacique Tibiriçá, pioneiro entre os cristãos convertidos em terras paulistas, e Padre Bartolomeu de Gusmão, o “padre aviador”, e lá permaneceu até esta semana, quando foi transladado para a nossa cidade. Assim, o solo sagrado da Catedral de Santo Antonio acolheu em seu seio seus três primeiros bispos: Dom Ernesto de Paula, Dom Aniger Francisco Maria Melillo e Dom Eduardo Koaik, além do querido Mons. Rosa, pároco da mesma Catedral falecido em fama de santidade. Torna-se assim local de profunda reverência, pois cada um deles em seu tempo procurou cumprir a sua missão, deixando uma legião de admiradores e amigos que ainda hoje isto testemunha.

Discutiu-se no passado sobre esta transladação dos despojos de Dom Ernesto de Paula. O empecilho maior seria um possível documento do bispo pedindo que fosse sepultado em São Paulo e não em Piracicaba. É fácil imaginar que este gesto nada mais foi que uma demonstração de sua larga humildade, típica de sua figura tão nobre e cristã. Nada mais justo e coerente que o idealizador e construtor da Catedral de Santo Antonio recebesse aqui sua definitiva sepultura a fim de que e os fiéis desta Diocese pudessem visitá-la com mais frequência.

Os laços de Dom Ernesto de Paula com a Arquidiocese de São Paulo foram grandes e por isso este seu desejo de ser sepultado na Cripta da Sé foi respeitado. Basta lembrar que ele nasceu, viveu e tornou-se padre em São Paulo. Enquanto Vigário Geral recebeu a nomeação para Jacarezinho/PR, como seu segundo bispo, e depois, transferido para Piracicaba, tornando-se o nosso primeiro bispo. Seus pais, imigrantes italianos, viveram e morreram em São Paulo. Quando renunciou ao governo da Diocese de Piracicaba, em 1960, foi pra São Paulo que Dom Ernesto retornou e lá auxiliou os cardeais Dom Agnello Rossi e Dom Paulo Evaristo Arns, além de tornar-se capelão de uma humilde igrejinha, a Capela de Santa Luzia e do Menino Jesus, no centro da cidade. Permaneceu na Diocese de São Paulo até sua morte, isto é, por mais de 30 anos. Neste período, escreveu dois livros de profundo e inestimável valor histórico: “Reminiscências” e “São Paulo do meu tempo”.

Com certeza, o querido bispo, lá do céu, ficou agradecido por este gesto de carinho orquestrado por Dom Fernando Mason, nosso bispo e Mons. Jamil Nassif Abib. Historicamente este gesto era necessário.

(Claudinei Pollesel é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba).

1 comentário

  1. Marcelo de Paola Marin em 31/10/2020 às 09:55

    Importante lembrar que meu bisavô Luigi tinha uma oficina de marcenaria onde hoje é a praça João Mendes. Sou sobrinho neto de dom Ernesto e neto de seu irmão um ano mais velho, Francisco. Uma semana antes de falecer estava lúcido e disse a dom Paulo Arns: quando for a minha Páscoa, gostaria de ser sepultado ao lado de minha mãe no cemitério do Santíssimo Sacramento ou no quintal da minha casa. Dom Paulo, com aquela fleuma que lhe era peculiar, disse: meu caro irmão bispo, não podemos sepultá-lo no quintal, as leis municipais não permitem. Dom Ernesto, com senso de humor fino, contestou: o quintal de minha casa, onde brincava com meus irmãos, era a praça João Mendes, onde hoje é a Catedral da Sé, exatamente. Confidencio ao senhor algo de foro íntimo, tenho muitos sobrinhos, muitíssimos sobrinhos netos, não quero que seja um incômodo o meu sepultamento, além do que meus irmãos idosos, que moram comigo, se desgastarão em uma viagem para meu sepultamento. Peço, por caridade, que o senhor me atenda. Dias depois, Paulo Evaristo, cardeal Arns, cumpriu sua palavra com meu tio bispo.

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