A HISTÓRIA QUE EU SEI (LXII)

A Pesquisa do IBOPE
O IBOPE, em 1968, ainda não era a instituição nacional em que se transformou.

No entanto, já tinha respeito. Assim, em Abril de 1968, passou a circular, sigilosamente, nos meios políticos piracicabanos uma pesquisa que aquele instituto fizera, em Piracicaba, no mês de Fevereiro. Tem-se, como suposto, que a pesquisa fora encomendada pelo Governador Abreu Sodré, buscando uma visão geral do que deveriam ser as eleições daquele ano no Estado de São Paulo. A suposição se deve ao fato de a pesquisa ter chegado apenas às mãos dos principais líderes da ARENA – Salgot Castillon e Domingos Aldrovandi – não tendo sido divulgada ao público. Haviam sido entrevistadas 300 pessoas em Piracicaba, residentes e votantes, no período de 1 a 4 de Fevereiro, buscando, também, a sua opinião quanto ao governo do Presidente Costa e Silva e do Governador Abreu Sodré. Costa e Silva obteve aprovação de 37% dos consultados, entre os que consideraram o seu governo ótimo e bom; na mesma faixa de apreciação, Abreu Sodré obteve 44%.

O impressionante daquela pesquisa do IBOPE, no entanto, estava na apreciação do povo quanto à administração de Luciano Guidotti. Do universo consultado, 18% consideravam ótima a administração de Luciano e 46% a tinham como boa, um total de aprovação, portanto, de 64% da população. E, se houvesse eleições, naquele ano, para a escolha do governador do Estado, 55% da população votariam em Carvalho Pinto. Eram números altamente significativos que, compreensivelmente, estimulavam o entusiasmo de Luciano Guidotti e dos “guidotistas”, especialmente porque, em nível das eleições municipais, acabavam revelando também uma pequena vantagem do candidato “guidotista”, Humberto D’Abronzo, sobre Salgot Castillon 43,2% de preferência para D’Abronzo e 41, 9% para Salgot, considerando-se o fato de nenhum dos dois ter assumido, pública e oficialmente, a candidatura a prefeito de Piracicaba. Eram, no entanto, números. Que deveriam ser analisados, como o foram. (O terceiro candidato era Francisco Antonio Coelho, do MDB, que obteve a preferência de 6, 6%, menor do que os indecisos que somavam 8, 3% do eleitorado.)

Tratava-se de uma análise difícil, pelo menos para os políticos e partidos daqueles tempos. Uma conclusão primeira era óbvia: Luciano Guidotti tinha mais apoio popular do que a expectativa diante de uma candidatura de Humberto D’ Abronzo ou de Salgot Castillon. Havia, porém, algumas informações fundamentais: Luciano Guidotti tinha grande aprovação no centro da cidade, mas ia decaindo conforme eram ouvidos os bairros, distritos e zona rural. O mesmo fenômeno se repetia com a candidatura de Humberto D’Abronzo, cujo prestígio maior estava no centro da cidade e em Vila Rezende. Nos distritos e na zona rural, o prestígio era de Salgot Castillon. Nos bairros tidos como mais populosos, Salgot e D’ Abronzo empatavam: 46% de preferência, para os dois, em Vila Rezende; 43%, na Paulicéia. E havia uma outra informação importante: os “ademaristas” e os “carvalhistas” preferiam votar em Salgot do que em D’ Abronzo, ao passo que os “janistas” preferiam este a aquele.

A distância daquele ano nebuloso e plúmbeo, parece-me, agora, que a grande decisão naquelas eleições municipais de 1968 se deveu, mesmo, ao posicionamento do vice-prefeito Nélio Ferraz de Arruda, que sucedeu Luciano Guidotti, morto no cargo. Nélio tinha, diante da opinião pública, enquanto vice-prefeito, um índice de 34, 9% de preferência do eleitorado, se viesse a candidatar-se, contra apenas 16,6% do segundo colocado, exatamente o “guidotista” Jorge Angeli. O jornalista Losso Neto – a quem as elites apelavam para ser candidato – tinha apenas 4,6% da preferência popular.

Era este, segundo a pesquisa do IBOPE, o quadro político de Piracicaba em Fevereiro de 1968, o ano de chumbo.

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