A HISTÓRIA QUE EU SEI (LXXXI)

A cassação
Na manhã do dia 16 de Outubro de 1969, uma sexta-feira, já havia informações seguras de que o mandato de prefeito de Salgot Castillon e os seus direitos políticos haviam sido cassados pela Junta Militar. A notícia seria divulgada, oficialmente, à noite, pela “A Voz do Brasil”. Já pela manhã, Salgot Castillon limpava as gavetas de seu gabinete na Prefeitura Municipal de Piracicaba. Estava encerrado o “salgosismo”, numa única penada da Junta Militar. Agora, eram três lideranças que se extinguiam: Luciano Guidotti e Alberto Coury, mortos, Salgot Castillon, com os direitos políticos cassados por 10 anos.

Prefeito por um dia
Após a noticia da cassação de Salgot Castillon, os rumores, na cidade, eram os mais desencontrados. Havia euforia entre os “guidotistas” mas a maioria da população estava cautelosa e assustada. O terror estava instalado no país e os detalhes, da morte do líder comunista, Carlos Marighella, haviam sido bombasticamente anunciados pela imprensa, rádio e televisão. A Rede Globo lançava, em rede para o país todo, o “Jornal Nacional”, com noticiário unificado e favorável ao governo militar. No Rio de Janeiro, um grupo de jornalistas editava o semanário satírico e crítico, “O Pasquim”. Havia medo nas ruas, mas, também, audácia. Tendo Salgot Castillon sido afastado da Prefeitura numa sexta-feira, aguardava-se que, já no sábado, o vice-prefeito Cássio Paschoal Padovani se empossasse no cargo, um ato automático. No entanto, passou-se o sábado e Cássio não assumiu. Passou-se o domingo e o vazio na Prefeitura continuava o mesmo. A cidade estava sem Prefeito, havendo estranhezas e rumores quanto ao fato de Cássio Padovani não assumir o cargo de prefeito, vago pela ausência de Salgot Castillon. Na segunda-feira, dia 19 de Outubro, a cidade tomou ciência de uma notícia surpreendente: quem assumira a Prefeitura fora o vereador João Fidélis, Presidente da Câmara Municipal. A repercussão foi intensa e negativa, pois João Fidélis era um homem simples, sem qualquer preparo para o cargo e, além do mais, a legislação era clara: na vacância do prefeito, assume o vice. Nesse mesmo dia 19 de Outubro, Cássio Paschoal Padovani foi urgentemente chamado ao 5º-G-CAN, em Campinas. Os militares estavam irritados, temerosos de que a cassação dos direitos políticos de Salgot Castillon e mais a posse ilegítima de João Fidélis causassem alguma comoção na cidade. Poucos sabiam que, na realidade, João Fidélis participara de, por assim dizer, uma brincadeira de seus companheiros de Câmara Municipal, especialmente do vereador Jaime Pereira, um brincalhão: “Vai, João, o cargo está vago, Cássio não assume, o Prefeito é você!” – João Fidélis era estimulado pelos vereadores. E, ingenuamente, tomou posse no cargo de prefeito. Durou apenas um dia. Mas foi Prefeito.

No dia 20 de Outubro, depois de pressionado pelo Exército, Cássio Paschoal Padovani finalmente assumia o cargo de Prefeito Municipal de Piracicaba.

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