Fabiano Lozano

Músico, compositor, intelectual, pessoa a quebrar os alguns dos muitos tabus sociais que cercavam famílias e jovens ao início do século XX. Fabiano Lozano nasceu na Espanha, em 1884, e chegou ao Brasil aos 13 anos, vindo a residir em Piracicaba. Diplomado aos 19 anos, retornou a seu país, onde aperfeiçoou-se em piano, harmonia, regência, no Conservatório de Música e Declamação de Madri.

E, de volta ao Brasil, passou a dedicar-se ao ensino como professor primário, a partir de Piracicaba. Não se tratava, entretanto, de um artista comum. Em torno de si, Fabiano Lozano, como professor do Colégio Piracicabano, reunia jovens , intelectuais. Muitos são os relatos dos saraus que promovia, numa atmosfera onde a música era ponto central. Com esse perfil, não foi difícil que uma de suas alunas por ele se apaixonasse: trava-se da filha de uma família de imigrantes norte-americanos de Santa Bárbara D’Oeste. E, ao casar-se com Dora Pyles, o músico espanhol também quebrava outro tabu: tratava-se do primeiro casamento na colônia dos americanos com alguém que não fosse do próprio grupo.

Quando, em 1914, a Escola Complementar transformou-se em Escola Normal, Fabiano assumiu a cadeira de música e iniciou o Orfeão Normalista, apontado por muitos como o primeiro esforço de movimento coral articulado em uma escola. E sua trajetória foi cada vez mais rápida e ascendente: fundou em 1915 a Orquestra Lozano e, no Colégio Piracicabano, passou a oferecer um curso de piano em dez etapas.

Lozano também foi o criador do Orfeão Piracicabano (Na foto, à frente do Orfeão Piracicabano, o primeiro do Brasil), para aproveitar vozes privilegiadas que ele encontrara na cidade. Queria, ele, um grupo mais estável que o Orfeão Normalista, cuja mudança de componentes era freqüente, em função do rápido período escolar de seus cantores.

Mas, para Piracicaba, o fato mais significativo daquele espanhol que encantava a todos foi sua responsabilidade na criação da Sociedade da Cultura Artística. Foi em sua casa, em 25 de maio de 1925, que uma reunião preparatória deu início ao movimento. Seu primeiro presidente foi Antonio dos Santos Veiga e, a partir de então, concertos se sucederam em Piracicaba, transformando a cidade do interior em ponto convergente de grandes artistas do país, como Magdalena Tagliaferro – que em 1951 tocou justamente em homenagem a Fabiano Lozano – Guiomar Novaes, Bidu Sayão, Camargo Guarnieri, Anna Stella Schic, Iara Bernete.

Os três primeiros concertos tiveram, entretanto, a presença de Fabiano Lozano: todos foram dados pelo Orfeão Piracicabano a quem Mário de Andrade, em 1928, assim se referiu: ” é o primeiro coro artístico do Brasil. Não é o primeiro em data, mas o primeiro em valor. O Prof. Lozano é animador admirável dessa moçada piracicabana. A ele cabe o mérito indelével dos primeiros prazeres corais que o Brasil pode criar”. Muitos foram os jornais da época que registraram a ovação dedicada ao grupo, quando de sua apresentação no Teatro Municipal de São Paulo, o que pode incrementar ainda mais a luta desenvolvida por seu maestro em favor do canto orfeônico em todo o país.

Tornando-se cada vez mais conhecido por suas composições e arranjos, Lozano respondeu pela chefia do Serviço de Música e Canto Coral do Departamento do Estado de São Paulo. E foi mais além: convidado, transferiu-se para Pernambuco, onde orientou o ensino de música e canto coral nas escolas públicas de todo o Estado. Só foi aposentar-se depois de 45 anos de atividades junto ao magistério paulista, depois de ter formado também o Orfeão do Professorado Paulista . Deixou muitas obras, inclusive dirigidas ao ensino da música no ensino básico e médio, assim como várias publicações específicas para canto orfeônico, sempre priorizando a educação musical das crianças.

* Beatriz Elias é jornalista e escritora

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