Perséfone: o mito evanescente

Perséfone passeia eternamente do reino das sombras para a superfície da luz. Conhece tanto as profundezas como os campos em flor. Raptada por Plutão, o rei do Hades, ela reina ao seu lado nas entranhas da terra.

A mulher Perséfone é aquela que precisa verdadeiramente viver nos limites do conhecido, o seu mundo é sobrenatural. Ela será sempre atraída pelos ensinamentos da metafísica. Para os gregos, era a rainha distante do mundo avernal, que vigiava as almas dos falecidos, as sombras. Mas era conhecida também como a virgem, a donzela – Coré – que foi seqüestrada de sua mãe, Deméter.

As mulheres Perséfone são altamente reservadas e muitas vezes, reclusas. O desgaste psíquico de permanecer em meio às pessoas e à agitação dos mercados, frequentemente faz com que elas se retirem do cenário social e tentem se manter, apesar das dificuldades, à margem da sociedade. Essas mulheres precisam de muito tempo sozinhas, levando a cabo seus projetos secretos, suas reflexões, sua comunhão com o mundo invisível.

O mundo avernal é, na verdade, o inconsciente, e Perséfone é aquela que foi sorvida não apenas pelo desconhecido, por tudo que é reprimido e sombrio, lembrando Freud, mas ainda mais profundamente pelo inconsciente coletivo, o mundo das potestades e poderes arquetípicos, lembrando Jung.

Depressão e retraimento, acompanhados ou não de fantasias suicidas, podem ser conseqüências de uma grande perda, de um trauma violento. É possível ser atraída ao domínio tenebroso de Perséfone após um divórcio, uma mudança não desejada, um aborto, a perda de um emprego, um acidente…em tudo isso há sempre alguma espécie de morte psíquica. Afinal, o que é a perda senão o sentir arrancado de si a imagem de alguém, de um lugar ou de um modo de vida amado? O desaparecimento de um objeto de amor traz um grande ermo, e esse oco vazio é descrito, numa linguagem simbólica, como a descida ao mundo avernal.

O que é reconfortante sobre o mito de Perséfone é haver uma figura guardiã que rege esses períodos terríveis de perda de energia e que nos protege, por assim dizer, até estarmos prontos para voltar à vida normal cotidiana.

Estranhamente velha antes do tempo, anciã antes de ser inteiramente donzela, Perséfone tende a ser mais sábia do que sua idade nos faria supor. Por fora, ela ainda preserva o ar inocente da donzela, uma espécie de adaptação congelada à imagem da sua perda, mas, internamente, sente-se sobrecarregada com um conhecimento que mal pode suportar.

Nessas mulheres com estrutura dúplice, ou seja, uma máscara exterior inocente e bem adaptada, e uma outra vida rica e intensa, há uma exigência imperativa no que se refere ao conhecimento, ao significado desse movimento que vai das profundezas à superfície, correndo um sério risco de viver um perpétuo tormento caso não se disponham a enfrentá-lo.

*Elaine de Lemos é psicanalista.

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