Extinguiu-se a usina de energia: Raul Coury

(In Memoriam, entrevista concedida em 2006. A redação manteve o texto original.)

Raul Coury sempre extraiu literalmente a sua energia. Afinal, há mais de 50 anos ele está à frente de várias usinas e hoje o grupo que formam, o Cosan, é o terceiro do mundo em produção. Mas há cinco anos Raul decidiu investir em café na centenária fazenda Nova Java, que fica em Rio das Pedras. Essa dobradinha café/açúcar faz com que mantenha uma invejável disposição. De segunda a sexta-feira ele começa cedo no batente, se dividindo entre a empresa e a fazenda. Nesta entrevista exclusiva para A Província Online, ele conta suas recordações de Piracicaba, diz que hoje em dia nós não sabemos mais apreciar um bom café – “o que vocês tomam não é bebida, é uma tintura” – e conta como, casado há 54 anos com Anita, com seis filhos e cinco netos, se mantém tão disposto. “Velho que não anda… desanda”, ensina.

A PROVÍNCIA ONLINE – Por que o senhor decidiu voltar a investir em café?

Raul Coury – Foi um retorno às origens. Eu costumo dizer que nasci embaixo de um pé de café. Meu pai, Massud Coury, que veio do Líbano, era basicamente um cafeicultor, formou todo o capital dele com o café na fazenda Nova Java, em Rio das Pedras. Ele vendia café beneficiado.

A PROVÍNCIA ONLINE – Então o café, para o senhor, tem gosto de infância?

Raul Coury – Demais, demais! As minhas mais remotas lembranças estão ligadas a ele. Essa fazenda, a Nova Java, que existe até hoje, surgiu há mais de 140 anos e em 1926 foi comprada pelo meu pai.

A PROVÍNCIA ONLINE – A família toda morava lá?

Raul Coury – Não, a gente ia passar férias. Quando eu tinha um ano, nós viemos morar em Piracicaba, na rua Boa Morte.

A PROVÍNCIA ONLINE – Como era a cidade naquela época?

Raul Coury – Ah, Piracicaba era plácida, tranqüila! Me dá uma grande saudade. Até hoje sinto um aperto quando fecha um lugar tradicional, como a Farmácia Neves, por exemplo. A rua em que a gente morava, a Boa Morte, era a única calçada do Centro. As outras tinham basalto na lateral e o leito com pedregulho de rio. A rua principal já era a Governador Pedro de Toledo, mas na época ela se chamava rua do Comércio.

A PROVÍNCIA ONLINE – Os imigrantes árabes eram muito unidos?

Raul Coury – Eram. O avô do Cecílio Elias Netto, o Gabriel Abrão Risk, era tio do meu pai e foi quem abriu crédito para ele nas casas atacadistas. Meu avô era padre, mas diferente naquele tempo, era um padre maronita, que podia se casar.

A PROVÍNCIA ONLINE – Onde o senhor fez seus estudos?

Raul Coury – O jardim da infância fiz no Externato São José, que ficava na Dom Pedro, onde depois foi a antiga Odontologia. Depois o primário fiz no Barão do Rio Branco e no Colégio Piracicabano, que tinha um ensino muito bom.

A PROVÍNCIA ONLINE – Quais professores foram mais marcantes?

Raul Coury – Você sabe que até hoje eu me correspondo com minha professora do primário? Ela me dava aulas no Colégio Piracicabano. Eu a localizei nos Estados Unidos, mandei uma foto da nossa turma e pedi que ela me dissesse se reconhecia. Ela respondeu que sim, está lúcida com mais de 90 e se chama Lucy Pylles.

A PROVÍNCIA ONLINE – E como era passar as férias na fazenda?

Raul Coury – Ah, era sempre muito gostoso. A gente ficava todos os três meses que não havia aulas por lá. O prédio da casa principal foi construído em 1890 e eu procuro preservar. Hoje estou reformando a máquina de beneficiar café.

A PROVÍNCIA ONLINE – Qual o segredo de um bom café?

Raul Coury – Começa pelo plantio, pela colheita. Eu prefiro o café cereja, o vermelho, que é o café colombiano, hoje o melhor do mundo. Depois de colhido, você lava, seca e tira a polpa. É o café despolpado, que fica branco. Você o colhe no ponto em que ele está com mais mucilagem e dá uma bebida que chamamos de mais mole, com mais sabor.

A PROVÍNCIA ONLINE – E como se deve preparar a bebida?

Raul Coury – Olha, isso aí que vocês tomam para mim não é café, é tintura. O café tem de ser uma infusão, assim como se faz com o chá. Quando a água estiver no ponto de fervura você acrescenta o pó de café e o açúcar e só depois é que coa, mas num coador de pano ou de nylon.

A PROVÍNCIA ONLINE – O coador de papel tira o gosto do café?

Raul Coury – Isso foi uma coisa que a Melitta inventou para vender café. Colocar a água fervente em cima do pó faz do resultado uma tintura, como já disse.

A PROVÍNCIA ONLINE – O senhor disse que sua família tinha fazenda de café desde 1926. E a grande crise de 1929, o Crack da Bolsa, não afetou os negócios?

Raul Coury – Eu era pequeno, mas acho que meu pai estava com a burra cheia de dinheiro, como se dizia, ou então teve a sorte de vender o estoque antes da quebra. O fato é que ele continuou com o café, mas procurou diversificar um pouco. Ele faleceu em 1943 e deixou o negócio para ser tocado por mim e por meus irmãos.

A PROVÍNCIA ONLINE – Foi quando os senhores resolveram trocar o café pela cana?

Raul Coury – Não foi tão imediato. É que em 1950 o Instituto do Açúcar e do Álcool permitiu que quem tivesse açúcar batido ou mascavo investisse. Então em 1951 a gente montou a Usina Bom Jesus, em Rio das Pedras, e também investimos muito na cidade, em escolas, hospitais, creches e tantas coisas. Eu recebi já homenagens como cidadão benemérito de Rio das Pedras, mas acho que o pouco que fiz foi apenas uma retribuição.

A PROVÍNCIA ONLINE – É por que a partir da Usina Bom Jesus os negócios não pararam de crescer, não é?

Raul Coury – A Bom Jesus foi o começo e hoje está desativada. Em 1958 compramos a Indiana, em Botucatu, em 1966 a São Francisco, em Capivari, em 1968 a Santa Helena, em 1970 a São Jorge e por aí foi…

A PROVÍNCIA ONLINE – Hoje qual é a situação do grupo?

Raul Coury – Com o Rubens Ometto, que é nosso grande artífice, o grupo passou a ser o terceiro no mundo em produção, com 32 milhões de toneladas de canas moídas por ano.

A PROVÍNCIA ONLINE – Para o senhor, voltar a investir no café seria uma terapia?

Raul Coury – Não diria isso, pois não pense que é pouca coisa. Hoje eu estou com 390 mil pés de café, o que me dá uma boa produção. E eu optei por fazer um plantio adensado. No tempo do meu pai os pés eram plantados a uma distância de 4 metros entre um e outro, eu aproveitei mais o terreno. E na parte da Nova Java em que está o café eu não podia mesmo plantar cana pois passam linhas de força de altíssima tensão.

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