O homem e a arte de falar da vida

Uma boa definição para Newman Ribeiro Simões seria “o maestro do Falando da Vida”. Sim, porque a Agronomia ele nunca exerceu, embora seja formado pela Esalq. Newman é professor de Matemática – em 2006 completou 40 anos de exercício no CLQ – mas acha o rótulo de educador um tanto sisudo. Há 20 anos, quando surgiu o show “Falando da Vida”, parece ter encontrado o que procurava desde os tempos em que era adolescente na cidadezinha de Pindorama: usar a música para refletir sobre o que vivemos no mundo moderno. Aos 57 anos, casado há 34 com Beth e pai de Ricardo, Newman também prova que a convivência com a arte e os jovens rejuvenesce. É que ele fala sobre seu trabalho a A PROVÍNCIA com um entusiasmo juvenil. Acompanhe trechos da entrevista exclusiva:

A PROVÍNCIA – Como você definiria sua atuação profissional? Como um educador que tem um lado artístico?

Newman Simões – Eu não me atreveria a dizer que sou um artista. Gosto deste aspecto de circular por áreas diferentes relacionadas ao meu trabalho. Também não me atreveria a me definir como um educador.

P – Mas você exerce a função de educador na prática…

R – Sim, mas não tenho a formação acadêmica de educador. Sou agrônomo formado pela Esalq, com mestrado em Estatística. Mas dou aulas desde 1966.

P- E neste tempo, o que mudou nos jovens?

R – Eu diria que a ansiedade de criar espaço, assumir responsabilidade, definir o peso da carreira em sua vida, é a mesma. Mas antes as escolas públicas eram muito melhores e o ensino era muito mais valorizado.

P – Qual a importância da arte na educação?

R – Tanto no cursinho como no colégio a música sempre foi extremamente valorizada. Aliás, a gente procura valorizar as artes de maneira geral. Temos trabalho também com filosofia, criando espaços do pensar filosófico.

P- Foi dentro deste contexto que surgiu o show “Falando da Vida”?

R- O “Falando da Vida” surgiu no colégio em 1985. A gente já se reunia para fazer shows musicais sem compromisso mas daí apareceu a idéia de levar a sério. Os primeiros shows tinham 3 professores e 4 alunos, enquanto no mais recente já tivemos 22 pessoas no palco. Na verdade tudo começou ainda em Pindorama, onde eu e meu irmão Douglas já tínhamos essa função de agitadores culturais. A gente fazia showzinhos com músicas dos Beatles e dos Rolling Stones, com música francesa e americana, canções de protesto, isso tudo numa cidade que nem escola secundária tinha. Depois, na Esalq, peguei a fase mais efervescente do Calq, de 66 a 70, quando tudo acontecia.

P- E a resposta do público sempre foi positiva?

R- Demais. Nos primeiros shows a gente se apresentou com meia lotação. Na última vez, fizemos três noites e os ingressos se esgotaram muito antes.

P – Quais as principais características do “Falando da Vida”?

R- Em primeiro lugar, ele é sempre beneficente. Depois nós gostamos de fazer apenas uma semana por ano para causar essa expectativa no público. A gente se reúne, ensaia, se apresenta e depois quase não se vê mais. Mas fica sempre pensando em novas idéias para o ano que vem.

P- Vocês seriam seresteiros modernos?

R- Não. Penso que não é o saudosismo que nos move, mas a vontade de tocar o público de maneira emocional. Queremos mexer com a platéia e às vezes percebo pessoas chorando na platéia. Temos o cuidado de tocar em temas fortes e com a preocupação de dar uma resolução otimista. É que nos dias de hoje as pessoas vão passando por cima das coisas da vida… Gostei da definição de uma pessoa que acompanha nossos shows desde o começo: “é o previsível surpreendente ou a surpresa previsível”.

P – E vocês têm CDs gravados?

R – Gravamos um em 97, acho que já está na hora de gravar outro, mas os custos são caros, os direitos autorais também e até os músicos profissionais estão com dificuldade de lançar…

P – Nesse momento atual, de desilusão com a política, fica mais fácil ou mais difícil trabalhar com jovens?

R- Olha, a desilusão passa, mas as coisas essenciais permanecem. Shakespeare permanece atual até hoje, assim como as músicas de uma certa época. Aliás, você não imagina como os jovens ainda estão ligados nos anos 60…

P – Ser jovem hoje em dia é mais difícil do que foi nos anos 60?

R- Acho que sim. Está tudo muito pasteurizado, as fronteiras são virtuais, os horizontes são difusos… Quando você não tem mais uma definição clara contra o que lutar, fica mais difícil lutar…

P – E a política partidária não lhe seduz mais?

R – Eu fui duas vezes secretário, de Administração com o João Herrmann, e de Cultura com o Thame. Eu não deixo de fazer o que quero, mas hoje ter uma militância política direta realmente não me seduz. Acho que não consigo ser um ser humano partido. É a mesma coisa na religião.

P – Engraçado que seu show se chama “Falando da Vida” e no único livro que lançou você fala da morte…

R – Meu livro se chama “A Morte Canta no Canto de um Conto”, que é o título de um dos 11 contos. A gente escreve sobre influência do que leu e dois dos livros mais marcantes para mim foram “Memórias Póstumas”, do Machado de Assis, que é a narração de um morto, e “Incidente em Antares”, do Érico Veríssimo, que fala de mortos sem sepultura. Mas não é um livro pesado, acho que as pessoas se deixaram levar pelo título. Na verdade eu uso a palavra morte para falar de vida.

P- E o que representa Piracicaba para você?

R- Às vezes me pergunto porque decidi vir para cá fazer Agronomia se sempre me considerei totalmente urbano. Não é isso de destino, mas eu realmente me fiz aqui. Quando recebi o título de Cidadão Piracicabano, há uns oito anos, parafraseei Millôr Fernandes ao dizer: “quando eu morrer, vão encontrar Piracicaba gravada no meu coração”.

*Ronaldo Victoria é redator do Jornal de Piracicaba. A entrevista é de sua autoria como e quando editor de A Província online, sendo republicada para constar dos arquivos de A Província.com.

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