Crônica de um cão

– Texto publicado originalmente n’A Província em 19/04/2012.

Estava deitada em minha cama, e como toda manhã minha cãopanheira Nynna veio me dar aquela lambida de bom dia, sempre com um sorriso no rosto (é assim que parece que ela está, quando chega com aquelas orelhas saltitantes), e disposta a encher-me de carinho, mesmo que a minha noite de sono tenha sido ruim, ela sempre está lá e sempre alegre.

Então, a Nynna deitou no meu peito e eu me lembrei do dia em que fui buscá-la (ela foi adotada, peguei ela em um sítio de um amigo), ela parecia forte correndo no pasto e mordendo a roda de uma carroça, tão forte que achei que a Nynna era, o Nynno, mas quando a peguei no colo, ela se tornou frágil, quis pular do carro.

Já em casa, ela não latiu por três dias, e eu ainda me lembro da sua primeira refeição em casa, ah, como ela cresceu!…. Tudo isso veio a minha mente, e em meio a tantos afazeres, parei pra pensar: Quais serão as preocupações de um cão? Foi então que Nynna começou a me contar:

Ao acordar (eu programo todo o meu dia, que apesar de ser repetitivo, é divertido), tenho que ir dar “bom dia” a minha mãe, depois tenho que esperar o meu avó chegar, ele sempre traz pão quentinho “pro” café da manhã e eu tenho que estar alerta.

Depois do café, vou tirar uma soneca, acho que logo mais vou brincar um pouco com o Otto (Otto é meu filhote, mas como ele tem uma mãe humana, nós viramos mais amigos do que outra coisa). Ah, mas não posso me distrair, tenho que estar de orelhas em pé pra ver se o carteiro vai passar, é muito desetressante perseguí-lo através do portão. Eu adoro fazer isso!

Mais tarde é hora do almoço, não entendo muito bem, mas os humanos sentam numa mesa (acho que é assim que chamam), e acho que nem sentem o sabor da comida, comem com uns ferros… Ah eu não, eu uso minhas patas e meus dentes e devoro tudo que me dão, como alface, bife, batata frita, e até cenoura. O meu tio humano (Juninho) até que tenta me enganar, ele acha que não sei que ele me dá legumes, e diz ser outra coisa… Esses dias ele me deu uma batata e me disse que era filé mignon, eu, como sempre, comi. Então ouvi ele dizendo: “Consegui, fiz ela achar que era carne”, deixei ele achar que me enganou, achei engraçado, rsrs.

Voltando a minha agenda, minha mãe, às vezes sai, ela não sabe, mas isso me preocupa, nunca sei quando ela volta. Alguns humanos acham engraçado, quando vão até a esquina e assim que voltam nós cães, os recebemos como se fizesse um ano que não os víamos, nós não temos muita noção de tempo, e para gente, qualquer minuto longe de quem amamos é muito tempo. Opa, quase esqueci, estava falando de quando a minha mãe sai… Eu fico apreensiva, tenho que vigiar a casa, cuidar do Otto, e ficar de olho pra ver se nenhum gato passa pelo muro… Ah como eles adoram me irritar!

Muitas vezes quando minha mãe volta, ela vem com preocupações e eu quero brincar, sei que às vezes atrapalho, porque sou meio atrapalhada e tenho uma mania ruim de pisar na pata dela (ou seria pé?).

Minhas preocupações não são como a dos humanos, mas eu também tenho tarefas, tenho que proteger a casa, e fico preocupada com o meu próximo passeio, gosto de sair, mas faz algum tempo que isso não acontece… (Ou será que foi ontem? Bem, não tenho noção de tempo). Ah, eu também gosto dos dias que a casa fica cheia, tenho atenção só para mim, meu tio traz a fêmea dele e também vem aqui um moço que é o par da minha mãe. Ah como eu adoro eles! Os dois não gostavam muito de mim, porque meus beijos e minha forma de demonstrar carinho são um pouco babados e agressivos, mas eu só quero é mostrar que gosto de todo mundo!

Acho que nós cães somos muito mais felizes, não perdemos tempo assistindo TV, e nem precisamos ostentar riqueza através de roupas e carros… (Claro que eu adoro um passeio de carro, principalmente se for pra ir até a sorveteria). Nós também podemos deitar e rolar na grama quando estamos felizes, coisas que não vemos um humano fazer. Quando estamos tristes, choramingamos, esperando um afago. Os humanos não: escondem seus medos e fraquezas e choram sozinhos.

E aí, não sei porque quando algum dia se torna ruim, dizem que foi “um dia de cão”, meu dia é tão bom, eu tiro sonecas, corro atrás do carteiro, brinco com os passarinhos que pousam no quintal, brinco também com o Otto, ganho ossos e enterro onde quero. Deixo também meus brinquedos espalhados pela casa, não tenho preocupações em pagar contas, em fazer trabalhos para faculdade, nem me estresso com os meus semelhantes (ah não ser por um bom pedaço de carne), não tenho que tomar banho todos os dias (não que eu não goste, mas é que não me atrai tanto), corro atrás dos gatos folgados que insistem em passar pelo muro… E à noitinha, quando escuto o barulho do portão, eu sei que a minha mãe está chegando, e logo eu estarei dormindo ao seus pés. Então, se isso é um dia de cão, eu quero que a minha vida inteira seja sempre uma “vida de cão”.

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