A vida deu certo?

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Li uma frase assim: “É com amor e com afeto que a vida vai dando certo…”. Será que vai mesmo? A vida deu certo pra você, meu anjo? Às vezes fico meditando nisso, se segui a minha estrela, ou se ela continua me seguindo até hoje.

Espero ter visto o astro logo depois de nascer e percebido qual seria o meu verdadeiro destino. Se isso é possível. Aquela história de que um Serafim nos visitou e disse algo sobre nós… Enfim. Que o Anjo amado permaneça conosco, pois avançamos no tempo. Sobretudo quando já se completou 67 voltas em torno do Sol.

Sim, aniversariei domingo. As pessoas costumam dizer “mais uma primavera”. Mas eu completo primaveras no inverno, no mês das férias escolares. E ficávamos sem os parabéns, a classe toda cantando para o aniversariante. Mas, alguém sabe o que são férias de julho na infância querida, na aurora da nossa vida?

Vivi este tempo amorosamente, os casaquinhos de flanela feitos pela minha zelosa mãe, a semana feliz passada no sítio dos tios. Varais sob o céu de puro azul, guardanapos alvíssimos secando ao sol.  Milho verde assado na brasa.  O pão feito em casa da tia Filomena, as noites estreladas no terreiro da casa. O sonho de ser uma menina em julho.

Tudo deu certo? Não sei. Fiz três faculdades, estudei muito. Creio que me casei com a pessoa certa, fui felicíssima num casamento de 36 anos, até que a morte nos separou. Duas filhas de ouro, e netos para esta fase em que somos chamados a um recolhimento natural. Então, estar com eles é um presente do céu.

Ao longo da vida, onze intervenções cirúrgicas, sendo nove com anestesia geral. O Serafim teria previsto tudo isso? Mas não havia alternativa e lá ia eu para o centro cirúrgico, de onde acordava cheia de esperança: está será a última. A última foi em 2005. Estou celebrando 12 anos sem cirurgias.

Algo deu errado?  Sim, tanta coisa sai errada na vida da gente. Umas têm conserto, outras exigem tempo. Ou resignação. Mas penso na moça linda, a atleta Laís Souza, que treinava na neve, em 2014, sofreu uma queda e está tetraplégica. Nos meus terços, rezo para os que têm de passar a vida numa cadeira de rodas. Rezo para os que carregam cruzes pesadas, pelos que lutam com a dor. Pelos coroados com o sofrimento.

“Ninguém quer a morte / só saúde e sorte”, diz a letra de uma música de Gonzaguinha. A vida é bonita quando tudo vai dando certo, quando sonhos são realizados, quando se consegue ser feliz. Saúde e sorte. Mas, Dona Vida nos causa surpresas duras pelo caminho. Sabedoria e paciência para conviver com elas. Deus nos abençoe e proteja. Amém.

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