Feliz ano velho?

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adeus-ano-velho-feliz-ano-novo-3224-2Não. Não há feliz ano velho e parece não haver nem mesmo feliz ano novo. Ano vai, ano vem, e as mesmas coisas estão aí. Há encanto no mundo, sim, existe a música e toda forma de arte eleva nosso espírito; mas há o perigo dos conflitos entre países, a crise mundial, violência e muita corrupção. Além de atiradores enlouquecidos que matam vidas ainda florescendo.

Feliz ano novo. Mas há nações em guerra civil, vide Síria, Egito e outras onde as insurreições não cessam. Israelenses e palestinos continuam em luta; refugiados pelo mundo todo, gente procurando um lugar para viver; catástrofes naturais que não dão trégua, deixando um rastro de desolação e milhares de desabrigados.

Como se faz para um ano ficar novo? Dar um belo polimento em 2013 e esfregar bem para ver se ele brilha? Passar lustra-móveis, aplicar gliter, purpurina, colar estrelinhas cintilantes?

É que o tal de “ano novo” está dentro de nós, começa lá no fundo do nosso coração. Não se faz um ano novo só com um cartão de palavras bonitas e poesia, estouro de champanhe, abraços e fogos de artifício. O ano novo que brota das nossas mãos tem de ser a aurora benfazeja de um novo dia, construído com a luta e a força do bem.

Nada será novo se o coração for velho. É preciso uma renovação profunda em muitas áreas de nossas vidas e de nosso ambiente exterior, nos relacionamentos e nos afetos, para se construir um ano novo, quiçá um mundo novo.

Se alguém muda, o mundo muda. Se uma pessoa consegue estender sua mão para o próximo que caminha ao seu lado, ah, tal gesto será causa de grande transformação! Que mudança formidável, quando, acostumados com a rotina, conseguimos enxergar o outro, sua dor, seu sofrimento, suas necessidades.

Se alguém pensou em começar o ano novo partilhando, esse ganhou o céu. Olhar nos olhos das pessoas quando se fala com elas, acolher, entender e aceitar o outro como ele é, como ele pensa e como ele vive. Ó, que ano novo!

A paz nasce de gestos pequeninos, porém concretos, significativos, poderosos. A paz de um ano novo, ou de um mundo novo, não vem de graça. Ela tem de ser engendrada, conquistada, passo a passo, pois não há outro caminho senão aquele das mãos dadas, do respeito, da solidariedade e do amor.

Sem amor, nunca teremos nada novo. Um ano será sempre velho, diante da miopia de líderes mundiais que almejam apenas o poder pelo poder. Ainda que todos os homens falassem a língua dos anjos, sem amor, nada seríamos. Sem amor, não se põe tijolo sobre tijolo, e nada se constrói de físico para morar, ensinar, educar, cuidar, sarar, gerir.

Como se faz a gestão do amor? Será preciso primeiro educar uma geração de pessoas capazes de se doar, de se permitir ser bom e humano. Estamos num deserto de vida. Ao nosso redor, há medo, violência, cidadãos trancados em suas grades e torres eletrificadas. E pensar que, um dia, em algum tempo, brincamos na rua, pulamos corda, andamos de bicicleta, jogamos bola e fomos livres como as florzinhas que vicejam e suspiram na relva dos campos.

Um ano novo com cara de velho, que graça tem? Não há nada mais triste. Um ano novo com gosto de “ano passado”, com “gosto de nada”, como se expressou a moça que experimentou o bolo ganho da vizinha, o mesmo que causou a morte de uma criança e intoxicou a outros tantos.

Quem começou o ano novo comendo bolo estragado? Quem pode conter as mesmices, as trágicas filas dos enlutados pela morte de entes queridos sem socorro médico? Quem consegue interceptar as balas perdidas para não chorar o enterro dos jovens? Quem tem alguma boa ideia para deter uma guerra onde o ponto alto é a declaração de que “eu não gosto de você e por isso vou matá-lo”? Sobretudo, com a permissão do secretário oficial para a carnificina.

Não é este o ano novo que esperávamos. Não é este mundo novo com que andamos sonhando. Hoje, usa-se muito a palavra “atitude”. Ótimo. Vamos adotá-la também para nossas militâncias gerais, para a ousadia de nossas ações. Ou o ano será velho, decrépito, carcomido, terminal, vencido, caindo aos pedaços. Derrotado. E acabou de nascer…

Não há “show da virada” que sustente a garantia de um ano novo. Eu não me iludo. Nunca me iludi. Corações e mentes precisam estar abertos para uma nova produção de sonhos, de ideais, de programas políticos com força para nos levar ao sonhado ano novo. Não há Olimpíadas, Taça Libertadores ou Copa do Mundo capazes de resgatar o respeito de um povo por si mesmo, seu orgulho, sua esperança, sua fé.

Não há glória sem justiça, sem paz. Ah, caro leitor, me perdoe o desabafo. Não me ache pessimista. Não sou. Ninguém, mais do que eu, desejaria finalizar este texto desejando um “feliz ano novo!”.

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Marisa Bueloni é formada em Pedagogia e Orientação Educacional. É membro da Academia Piracicabana de Letras (marisabu[email protected])

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