Inutilidades

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maxresdefaultNão me sinto bem descartar coisas porque são velhas ou fora de moda. Enquanto tiverem utilidade e forem passíveis de conserto, não abro mão, afinal cada descarte é uma agressão à natureza. Também porque coisas antigas são melhores. Pena que gastam mais energia. A primeira vez que comprei um carro zero foi em 2013. Um Corsa, preto porque outra cor só branca. Falaram para evitar o preto porque bosta de passarinho acaba com a pintura. Não dei ouvidos, já que como dizem se é branco cagam preto e se é preto cagam branco. A verdade é que a pintura está marcada de cima a baixo e não há o que as tire.

Não é só. Para quem tinha um gol 94, imaginem o coro que tomei. Claro que as vantagens de um carro zero são evidentes, mais ainda por serem flex. Porém, engenheiros de hoje – grosso modo falando – pensam que a gente é tapado. Querem facilitar tanto que acabam complicando. Se com o carro antigo dificilmente a gente ficava na mão porque qualquer gambiarra resolvia, os de agora só mecânico ou guincho. Haja gastos.

Uma das bobagens que inventaram foi o fechamento dos vidros e travamento automático das portas. É um sobe e desce, trava e destrava sem fim e sem ninguém mandar ou precisar. Dias desses notei que o sistema de travamento às vezes falhava. Numa manhã motor ligado, pronto para sair. A bolsa da Soeli no assento. Dentro da bolsa a chave reserva. Fechamos a porta da casa, puxei o trinco para entrar no carro e o sistema travou todas as portas. Carro funcionando, relógio andando, Soeli perdendo hora. Liga para chaveiro, nenhum disponível. Imaginem o sufoco. Com um pedaço de barbante, traquejo e paciência que adquiriu nas estradas desse Brasil varonil, o vizinho caminhoneiro foi quem resolveu. Achou uma brecha no vidro fechado, garroteou o pino da trava e abriu a porta. Que alívio. Tanta tecnologia para que o carro não seja roubado e se esqueceram do barbantinho. Tanta frescura e um ponto cego do tamanho de um elefante no retrovisor.Não falo que engenheiros de hoje sabem muito, mas não aprenderam nada?

Prova disso são eletrodomésticos de hoje. Nossa máquina de lavar tinha mais de 20 anos. Quebrava a gente chamava o Hércules e pronto. Uma vez eu mesmo fiz o reparo. Mas ela foi sentido o peso dos anos. Até que o conserto não mais compensava. Queríamos comparar uma usada semelhante, disponível na oficina do Hércules, mas ele disse ser cada vez mais difícil peças de reposição. Aconselhou-nos uma nova. Um maquinão. Tem luzinha por todo o lado. É tão sensível que se você tossir perto dela ela liga. Tem um ano e pouco de trampo e a tampa já se soltou. A do vizinho, com mais uso, mas igualzinha já teve que trocar o painel. Falo que até os engenheiros de hoje são descartáveis.

Mesma coisa a geladeira. Durou 23 anos. Resistimos até onde deu. Dava conserto, mas a lata estava apodrecendo. Compramos nova. Das mais simples. Parece em guarda-roupa na cozinha. Enorme por fora, mas cabe quase nada dentro. Tem tantas repartições que nada se acha. Fora os estranhos ruídos faz à noite. Parece celular de hoje. Faz tudo menos falar. Televisão e aparelhos de som também. Tem tantos botões no controle remoto que não se sabe para que servem. O vô tem até medo. Vai que aperte o botão errado e sai tudo do ar. A tecnologia de hoje é excludente.

Falando em engenheiros, as casas de antigamente tinham portas enormes e janelas grandes, muitas janelas. Todas com persianas ou bandeiras para o ar circular. O ambiente era arejado e luminoso. Hoje, além de as casas parecerem túmulos porque todas têm forma de caixote, as janelas são de vidro. Blindex que falam. Se chove, venta, faz frio e é noite, fecham tudo. Não há ventilação. Se alguém peidar contamina tudo.

Nesse sentido, já estive em hospitais e consultórios médicos onde as janelas permanecem fechadas e persianas abaixadas apesar da claridade e do clima ameno lá fora. Dá até arrepio. Realmente são lugares de gente doente.  Além do engenheiro que trocou o natural pelo artificial porque é burro, os pacientes, o pessoal que lá trabalha e os médicos que não percebem isso.

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