“O Rouxinol na gaiola não canta” (Filóstrato)

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rouxinol3Carnaval lembra bagunça, lascívia e extravagância. Embora exista uma minoria de infelizes que se aproveita da movimentação de massas para sair do armário e liberar traumas sem precisar assumir consequências, de forma geral não é o que acontece.

Penso que cada um faz o carnaval que gosta e pode. Uns vão aos salões. Pulam, dançam e se divertem. Outros gostam de assistir desfiles que escolas e escuderias apresentam nas ruas, não sem inúmeras dificuldades devido ao descaso com que são tratados e à falta de apoio dos que se esquecem que, para grande parte da população, carnaval sem desfile não é carnaval. Muitos preferem a TV. O bom mesmo seria se todos pudessem brincar livremente e com segurança nas praças e ruas do país, numa grande festa que nos irmanasse – crianças, jovens, adultos – na igualdade e na alegria.

Por outro lado, há os que tiram esses dias para refletir com sua comunidade ou preferem o silêncio do descanso na própria casa ou viajar para longe do barulho, ou nem terão carnaval porque trabalharão normalmente, como o pessoal da Saúde, Segurança, Transporte, Imprensa, etc. De qualquer modo, o carnaval é uma conquista do povo, que sabe que a vida também é festa; comemoração e confraternização.

Desde pequenos fomos programados para o trabalho. Só nos sentimos bem e úteis, produzindo. Quem perde o emprego, por exemplo, tem que ficar dando explicações para não ser tido como braço curto. Para muita gente, aposentadoria vira porta para a depressão. Depois que se aposentam há quem fique vagando pelas ruas até acabar o dia a fim de voltar para casa com a impressão de que esteve ocupado. O trabalho é fundamental em nossas vidas, mas não é tudo. Dizem que temos feriados demais. Contei na agenda (Agendas Pombo 2005), quantos são os feriados oficiais no Brasil. São doze. Nos Estados Unidos, também doze; no Japão são quatorze; na Itália, onze feriados e na Índia, cinco. Se o número de feriados atrasa o desenvolvimento de um país, o Japão seria terceiro mundo, a Índia primeiro e nós seríamos como os Estados Unidos.

O problema não são os feriados – que movem o turismo, o lazer, o entretenimento, que também geram emprego e renda – mas a injustiça. Quase ninguém trabalha satisfeito porque raramente é valorizado e respeitado pelos que mandam. Brasileiro trabalha como camelo, recebe um dos piores salários do mundo e cerca de um terço de sua vida vai para bancar o governo. Pode trabalhar dia e noite, sábados, domingos que nunca sairá do sufoco. O bolo produzido não é repartido com equidade. Sei de lojas que estão há décadas no mercado e nunca abriram aos sábados. Sua freguesia só aumenta.

Não somos máquinas. Não gosta de feriado quem tem problemas em casa; quem se serve do trabalho para fugir de si ou tem bronca de quem curte um pouco de ócio. Mesmo não gostando de carnaval, esses dias podem ser aproveitados para relaxar os músculos, aliviar as tensões, cuidar do espírito, ler um bom livro, assistir um filme ou deixar se embalar por uma música suave, curtir o pôr de sol, o canto dos pássaros, a chuva relaxante, o verde das matas, o brilho das estrelas e o coaxar dos sapos; conversar com pessoas, realimentar amizades, dar voltas no quarteirão, passear com a família, tomar sorvetes, fazer reparos, praticar atividades físicas, revirar a terra, plantar uma árvore ou fazer um canteiro de flores.

“Com efeito, que resta ao homem de todos os trabalhos e preocupações que o afadigam debaixo do sol? Porém, que o homem coma e beba e desfrute de seu trabalho, é dom de Deus.” (Ecl. 2,22; 3,14)

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