Para não dizer que não falei das flores…

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É primavera neste canto setentrional do planeta.

Depois do outono, que passou percorrendo com vôos rasantes as planícies deixando um rastro mágico de vermelho e dourado por todos os lugares por onde sobrevoou, chega esta outra estação segunda preferida do meu contemplar.

No lugar dos galhos secos vindos do inverno há uma explosão de verde nas folhas de mais diversos matizes, formatos e tamanhos. A vida brota exuberante nestas incontáveis folhas que agora adornam as arvores deixando-as vibrantes e viçosas. Suas copas se unem como num acasalamento gracioso formando belos túneis verdes para o deleite dos ciclistas e esportistas que percorrem os incontáveis quilômetros de trilhas desta região.

As flores? Ah! Como não falar das flores… A infinidade de cores, nuances e perfumes destes pequenos grandes presentes encantam aos olhos e ao olfato dos embevecidos observadores com tanta beleza tornando os jardins, as praças e canteiros das cidades lugares coloridos e perfumados.

É a época do renascer.

A primavera parece ser esta estação a qual lembra-nos que há sempre um recomeço. Que a vida, as cores e até mesmo os perfumes podem suplantar a cinzetude dos mais rigorosos invernos.

Que bom! Mal sabe você como é oportuna e bem vinda, doce primavera!

Para o leitor que me lê pela primeira vez, moro na California há muitos anos.

Entretanto, mesmo embora estando tão longe do Brasil, aqui deste lado de cima do Equador, encontro-me apenas fisicamente distante dos tristes e inenarráveis problemas que assolam nosso país. Tendo família, grandes amigos e grandes recordações em solo brasileiro não haveria como ter meu coração longe deste lugar. Este é o solo que amo e o qual, acredito, sempre chamarei de “casa”.

Mas há muito tempo que uma nuvem cinzenta, uma nuvem de vergonha, indignação e revolta com o status quo que parece ter tomado os céus de nosso país, parece também pairar sobre mim na indesejável forma de uma dama de companhia diária. Companhia esta que tem me feito inquieta, agitada, deixando um gosto amargo a garganta. Companhia que tem me feito acima de tudo triste, desesperançosa.

Neste passo, Lya Luft parece ter estado sob minha pele quando há um ano escreveu em um artigo intitulado “Não podemos ser uma nau sem rumo” as seguintes palavras: minha preocupação com o que acontece por aqui é intensa, e me esforço para que não sombrei minha vida e meu convívio com as pessoas. Obrigada cara Lya por verbalizar com elegância e precisão parte do que aprisionava minha alma.

Mas, voltando a falar sobre a primavera, interessante que junto com esta estação que aqui chega, ventos diferentes parecem estar (estendendo-se e) começando a soprarem por aí; ventos que, somados a outros podem ajudar a mudar (ou dar) o rumo a nau acima citada por Lya.

Além dos milhões de brasileiros que já foram as ruas o ano passado clamarem por mudanças e além de outros, que brava e regularmente posicionam-se a respeito, de tempos para cá começamos a ver também uma outro segmento (o qual grande penetração tem junto as classes C e D) também posicionar-se na mesma direção daqueles manifestantes, o segmento da classe dos artistas. Nos últimos meses a poetisa Adelia Prado e o ator Carlos Vereza deram depoimentos contundentes sobre as mazelas do cenário político atual. Na mesma esteira haviam soltado o verbo os músicos Roger do Ultrage a Rigor e Lobão, o comediante Marcelo Taz e mais recentemente o músico Ney Matogrosso em entrevista a uma TV portuguesa.

E hoje vejo no Roda Viva a atriz Irene Ravache falar de sua tristeza, de sua aversão à realidade sócio-política brasileira atual.

Felizmente ao invés destas declarações virem corroborar o gosto amargo daquele indigesto sentimento, ao invés disto a revoada destes cidadãos, a revoada de cidadania destes artistas posicionando-se, verbalizando suas dores e temores provocou o efeito contrario e positivo.

Subconscientemente talvez possa ser dito que a medida que reconhecemos no outro o mesmo desconforto com aquilo que nos aflige, uma espécie de bálsamo advenha desta “catarse coletiva”. Reconhecemo-nos não sós. Nossa indignação encontra guarida no outro!

Mas o fundamental desta equação é o efeito prático (consciente) que esta divulgação dos fatos e sentimentos por artistas (justamente esta parcela da sociedade que tanto pode atingir àqueles que, invariavelmente, pouco acesso a jornais e livros têm) pode provocar em seus ouvintes.

Quanto mais pessoas houver dando às coisas os nomes as quais elas têm, quanto mais pessoas houver informadas e cientes da realidade, quanto mais pessoas houver lutando por seus deveres e direitos como cidadãos, mais aptos estaremos a promover as mudanças necessárias a fim de terminar com tudo aquilo que ameaça os valores democráticos de uma sociedade, mais enriqueceremos como nação. Na verdade, quanto maior o acesso de nosso povo a educação, mais próximos de sermos uma verdadeira Nação estaremos.

Quanto mais ventos como estes soprarem, mais para longe poderemos mandar as cinzas nuvens que há muito pairam sobre nossas cabeças. Afinal, como diz a letra da música de mesmo título deste artigo, “Vem, vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer.”

Prósperos e renovadores ares da primavera, cheguem (se possível estendendo-se ao hemisfério Sul) com seu colorido revolvendo o redor, afastando a cinzetude de nossos dias e trazendo-nos o que tanto nos falta no momento; um despertar cívico, uma pulsação cívica!

As “janelas” de minha casa e da casa de tantos brasileiros estão abertas a recebê-los!

Saudações,

Thais Helena Guidolin Ouzounian

Ps. Abaixo algumas destas flores que inebriam aos sentidos, espalhadas por algumas das trilhas por onde pedalo semanalmente.

branca

explosao

copa

rosa

4 comentários

  1. Sergio Gelli em 23/05/2014 às 13:16

    ….Quanto mais ventos como estes soprarem, mais para longe poderemos mandar as cinzas nuvens que há muito pairam sobre nossas cabeças….
    Que estas suas palavram façam um dia refletir a realidade brasileira tal como estão refletindo a primavera na bela terra da California.

  2. waxconfessions em 23/05/2014 às 18:41

    Que bela maneira de expressar esse sentimento que aflora no coração de todos brasileiros que vivem nela ou estão longe da nossa pátria amada! Deixemos vir os tufões para que os mesmos consigam carregar essa nau para um porto seguro!!!

  3. waxconfessions em 23/05/2014 às 18:45

    Que bela maneira de expressar esse sentimento que aflora no coração de todos brasileiros que vivem nela ou estão longe da nossa pátria amada. Deixemos vir os tufões para que os mesmos consigam carregar essa nau para um porto seguro. Parabéns por um artigo tao claro, leve e ao mesmo tempo potente!!!

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  4. Antonio Carlos Danelon em 25/05/2014 às 10:34

    Lindo texto. Tão esperançoso quanto a primavera. Primavera que o Brasil gesta em seu seio. A corrupção já não encontra ninho e a indignação do povo faz com que retome a história da nação. Estamos melhorando a cada dia. Vasta ver com os próprios olhos e não com os olhos dos ‘outros’.

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