100% negro, 100% branco

Quanto mais passam os anos, mais admiro a sabedoria de meu pai, homem que chegou, no final dos 1920, à faculdade de Odontologia, desistindo pela perda de um dedo das mãos. Ele era um leitor voraz. E me dizia, o que eu pensava fosse brincadeira ou petulância: “Sou primo de Jesus Cristo.” Até que, um dia, ao me ver retrucar, ele me explicou seu ponto de vista: “Filho. Aquela sempre foi uma região pequena. As pessoas casavam-se entre conhecidos, entre parentes. Árabes e judeus sempre foram primos, desde Abrão. Logo, somos primos, também, de Jesus Cristo.”

A estupidez racial é o que, penso eu, o ser humano tem de mais assombroso no sentido de tolice suprema. Até recentemente, havia camisetas em que pessoas negras se proclamavam: “100% negro”. Era mentira e, mais do que isso, tolice inominável. Da mesma forma, como foi estupidez e tolice a arrogância ariana, a da raça pura, a loucura do Conde Gobineau, pai moderno do racismo, que viveu no Brasil ao tempo do império. Não há ninguém 100% negro, nem 100% branco, nem 100% mongólico. O DNA da humanidade, mesmo revelando singularidades, é o mapa comum de todos nós.

A afirmativa de meu pai, a de ser primo de Jesus Cristo, acompanhou-me a vida toda, possibilitando-me mil reflexões, um entendimento mais humilde da grandeza do ser humano e, também, da sua confusa limitação. Ora, nunca consegui saber nada além de meus avós, que não conheci, a não ser a avó materna que, aos meus cinco anos, me deu um profundo olhar de tristeza antes de morrer. Pouco sei deles. E nada, absolutamente nada, de bisavós, de tataravós, de ancestrais. O que sobrou foi uma história confusa, contada de geração a geração, de moços que se encontraram em partes diferentes do mundo, mas numa mesma região, casando-se, procriando, imigrando, formando descendência.

Dos bisavós, nem nome deles eu sei. Mas há a história de cruzamentos, de encontros, de acasalamentos. Um deles, acho que mestre de obras, saiu da Síria, foi trabalhar na Turquia, casou-se com uma turca; outro, saindo do Líbano, casou-se com uma grega. Formou-se, então, uma mistura com miscelânea não de raças, mas talvez de etnias e de geografias: turco, árabe, grego, a guerra entre sírios e libaneses. Dá para criar um romance, mas não explica nada.

Passei a pensar nessas coisas com ênfase ainda maior quando li um estudo do escritor Bill Bryson, tentando contar uma breve história de quase tudo, do big bang ao homo sapiens. Ele nos convida a refletir: não somos fruto apenas daquele momento em que um espermatozóide fecundou um óvulo, um instante fulminante. Antes de meus pais se unirem no coito que me gerou, os pais deles haviam feito o mesmo. E os pais dos pais dele. E, assim, indefinidamente.

O escritor faz os cálculos e lembra que, se recuarmos até, por exemplo, os primeiros tempos de D.Pedro II, de Abraham Lincoln, exatas 250 pessoas tiveram união sexual para que nascêssemos. E mais ainda: se recuarmos aos tempos da descoberta do Brasil, nos 1500, veremos que 16.384 ancestrais nossos se cruzaram para que eu, tu, ele pudéssemos ter nascido. E, ainda mais impressionante: se recusarmos vinte gerações, o número de pessoas procriando aumenta para a espetacular cifra de 1.048.576 pessoas. E é óbvio que, nessa multidão, houve bandidos, prostitutas, brancos, negros, amarelos, aleijados, gênios, palermas, santos. Ninguém é 100% nada. Por isso, falar em etnias, racismo, diferenças entre povos – a não ser na ordem cultural, geográfico, histórica – não passa de estupidez imensurável. Meu pai tinha razão: ele era, sim, primo de Jesus Cristo. Mas primo,também, de Herodes. Bom dia.

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