1958

1958Ora, para quem teve 18 anos em 1958, ficou sem graça viver em outros tempos. Fala-se tanto e tanto em 1968, o ano de chumbo, o que não acabou, ano de tragédia e de rebeliões mundiais. Mas o ano mágico foi 1958. E quem o viveu e nele viveu se tornou desajustado em todos os outros tempos.

Quem acreditaria que, em 1958, meu pai quis expulsar-me de casa porque vesti uma camisa vermelha e saí por aí? E a ira dele com meus cabelos, crescidos até os ombros? E o mais escandaloso dos banhos, que encantou uma geração? Aí está o Chacon, agora amigo querido, que pode contar da delícia dos tempos, quando Cely Campello revelou ter tomado um banho de Lua… E que ficou branca como a neve. Cely sabia e ensinou: “Se o luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve…” E acreditamos.

Fidel Castro e Che já estavam em Sierra Maestra e nós nos embebedávamos de Cuba Libre, sem saber o que iria acontecer. Embriaguezes em bares, dores de cotovelo, o lamento de Nora Ney substituído pela voz rouca de mulher linda e de imensos olhos azuis, Maysa Matarazzo. Era 1958. E Maysa, tocando violão nos salões da alta sociedade paulistana, contestava o mundo, bebendo e fumando. E desafiando: “Ouça, vá viver a sua vida com outro bem…” E, depois, o preço da dor: “O meu mundo caiu…” Manuel Bandeira, poeta maior, suspirou e definiu tudo, embevecido com aqueles olhos azuis: “dois oceanos não pacíficos.”

O tempo, não é preciso entendê-lo. Alguém escreveu: o tempo presente é o instante suspenso entre dois nadas, o passado e o futuro. Ora, para viver em paz, é preciso inventar diante do que se não compreende. É disso que nascem a filosofia e a poesia. Até no amor é preciso inventar. Que a pessoa amada é a mais bela e a mais generosa. Pois ninguém suportaria confessar o amor banal. Com o tempo, também invento: não é ele que passa; sou eu que passo por ele. E a vida se torna um passeio. Em cada idade, uma viagem pelo desconhecido.

O problema são as lembranças. Ou a bênção, sei lá eu. Pois se o passado é um nada, as lembranças são reais. E assustam quando revelam quanto se caminhou por essa viagem por entre dois nadas, passado e futuro. É, pois, assustador saber que o milagre de 1958 aconteceu há 50 anos. Mas o ano mágico ainda parece existir no esplendor e no maravilhamento que deixou. Por ter havido 1958, pode-se, ainda, ter esperanças de que o belo retorne e triunfe. Se o nada do passado é feito de lembranças, o nada do futuro há que ser tecido com esperanças. Saudade é uma espera.

Vejo-me, com nitidez, na manhã do dia 29 de junho de 1958, picando jornais no nosso apartamento de estudantes em São Paulo, ouvidos grudados ao rádio, a transmissão de Pedro Luiz do jogo Brasil e Suécia. Mal acabara, eu, de completar 18 anos e, até hoje, rendo-me à inocência daqueles tempos que permitia um garoto, menor de idade, morar em São Paulo, sozinho, para estudar. Picávamos papéis para jogar pelas janelas do apartamento, sob o qual passava o Viaduto Maria Antônia. Era a vontade nacional de sermos campeões do mundo, no mágico 1958 de tantos encantamentos. Então, o primeiro gol da Suécia, gelando corações e devolvendo-nos o terror das copas de 1950 e 1954. Mas havia um rei, um menino-deus, com o nome de Pelé. E vencemos.

E fui passear-me com a professorinha, namoradinha de um amigo meu, pela Avenida São João, tomada pela multidão, vendo os bondes apinhados de gente, o motorneiro insistindo no delém, delém, comemorativo. Era tanta a festa que a professorinha me levou a seu apartamento, também para comemorar. Mas não tive coragem e voltei para a bagunça das ruas.

1958, anos depois…E tudo está vivo: a voz de Nat King Cole ainda encanta o mundo, cantando boleros; Neil Sedaka, Maria Ester Bueno vencendo o Torneio de Wimbledon, campeã mundial de tênis, saindo de um Brasil que ainda jogava futebol com bola de meia. Meu pai quebrando-me o violão na cabeça, “poeta é bicho vagabundo”. E eu, fugindo de casa, na boléia de um caminhão, indo a Brasília como ajudante de pedreiro, um pouco de meu suor para participar do sonho de Juscelino… O desejo de conhecer Buenos Aires; ainda chorar a morte de James Dean, mas, também, encantar-se com Clark Gable e Audrey Hebpburn com Amor na Tarde; ler O Cruzeiro, saber das notícias do Rio, a Capital, com fofocas de Ibrahim Sued…Há 50 anos, 1958, uma construção do mundo como se fosse a Terra Prometida, lobos e cordeiros convivendo.

Lá atrás, passado; lá, à frente, futuro. Entre dois nadas, lembranças do que foi, esperanças tímidas no que virá. Viver 1958 com 18 anos foi presente dos céus. Ou um ópio que viciou para sempre. Por isso, tudo que veio depois não teve graça. Ainda não tem.

Deixe um comentário