A mais verdadeira paixão

Fonte: Website oficial Corinthians

Fonte: Website oficial Corinthians

O mundo irá extinguir-se e, quando vier a acontecer, os homens não terão chegado a qualquer acordo em relação à paixão. Pode ser graça e desgraça. Levar aos céus e empurrar aos infernos. Nem mesmo quem viveu uma grande paixão é capaz de explicá-la. E, no entanto, o velho e admirável Kant – apesar de temeroso diante a paixão – chegou à conclusão: “nada de grande no mundo nunca foi realizado sem paixões violentas.” Vejam-se as revoluções transformadoras. E a principal delas: a Paixão de Cristo.

A vida toda lutei para fortalecer a razão. Até que, finalmente – e diante de tantas paixões que me assaltaram – entendi que, pelo menos para mim, a razão deve estar a serviço do coração. Este sabe mais do que tudo. E tornei-me adepto de Pascal: “O coração tem razões que a razão desconhece.” Por isso tenho pena das pessoas que nunca viveram ou tiveram uma grande paixão. Elas vivem em branca nuvem. E desconhecem a plenitude da alegria e o insuportável da dor que se não imagina.

Fui abençoado – amaldiçoado, dirão alguns – por conhecer a paixão, grandes paixões. Por pessoas, por idéias, por ideologias, por ideais. Isso se me tornou quase que um vício de tal forma que – quando estive sem paixões – acabei criando-as, inventando-as. Certa vez, apaixonei-me por um vulto de mulher numa escadaria de um shopping em São Paulo. Era quase ao entardecer e a luz do sol, vazando por um vitral, batia naquela escadaria. Então, vi um corpo de mulher, apenas um corpo. Seu vestido era transparente e ela usava sandálias como as das gregas. Toda de branco, a luz do sol a iluminava, insinuando-lhe as formas. Era como se fosse uma deusa descendo dos céus para abençoar os homens. E era eu, senti-o na hora, o abençoado. Não consegui ver-lhe o rosto e, ao chegar ao pé da escadaria, ela se foi pelo corredor, caminhando graciosamente, distanciando-se de meu olhar, indo-se para sempre. Apaixonei-me instantaneamente por ela e confessei-o à minha mulher. Ela deu de ombros: “Você é feliz de conseguir inventar tantas paixões.” Fiquei sofrendo.

Apaixonei-me por Luiz Carlos Prestes, por Che Guevara, por Tolstoi, Fernando Pessoa, por Ava Gardner, por Jesus Cristo, por muitas e muitas pessoas. E não foi apenas entusiasmo, não. Apaixonei-me de sofrer, de cegar-me, de sacrificar-me, de viver a intensidade daquilo que, para mim, significavam. No entanto, embora a paixão perdurasse, foi como vela que, embora demoradamente, a pouco e pouco se extingue pelo apagar-se da chama. Cheguei, pois, a pensar fossem passageiras as paixões, como o amor decantado por Vinicius: “eterno enquanto dure.” Mas, não! Há uma paixão que resiste, que sobrevive, que alimenta, enlouquece, entontece, que se não explica, que vivifica, que mexe com sangue, neurônios, vísceras e alma: Corinthians.

Podem chamar-me de ignorante, embora eu saiba que não o sou. Mas o Corinthians – acabo admitindo-o, agora quando me chega a velhice – foi e é a única e verdadeira paixão de minha vida. Tudo o mais são amores: família, mulher, filhos, netos, irmãos, parentes, amigos. Paixão é o Corinthians. Inabalável, desestruturante, inexplicável como toda verdadeira paixão. Por quê? Não sei e nenhum corintiano saberá explicá-lo. É como se fosse uma doença incurável, uma tatuagem na alma, uma herança genética que vem do infinito. Não há como libertar-se dela. E nem eu quero. Pois o Corinthians faz-me sentir profundamente humano, com todas as fragilidades, fraquezas e forças, sentimentos contraditórios e humores do homem. Acho que é isso, que o descobri: o Corinthians faz a pessoa sentir-se humana, viva, digna num mundo de horrores e de desumanidades.

O Corinthians é a paixão integral, o casamento do homem com uma instituição. E é esse o verdadeiro casamento indissolúvel: o Corinthians e o corintiano, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Se há fidelidade no mundo, a única verdadeira e infalível é a do corintiano pelo Corinthians. Ele judia de nós, faz sofrer, mas isso como que aumenta e consolida a paixão. E é tanto esse sentimento enlouquecido que não precisamos sequer de títulos para fervermo-nos de passionalidade. Basta uma vitória, uma só. Contra qualquer time, o mais fraquinho que seja. Apenas isso já nos faz felizes. E, no entanto, quando somos campeões, ah! É o encontro com os céus, é abraçar o divino, é alcançar a plenitude da alegria, da paz, do conforto, do orgulho de ser. De ser corintiano? Não, orgulho de ser humano. O Corinthians é a maior prova da beleza da humanidade, de como é um privilégio ser humano.

Perceberam como a segunda-feira amanheceu límpida, azul, serena, pacífica,suave? Os céus derramavam-se sobre nós, sorrindo. Quando é campeão, o Corinthians transforma o mundo. Pobre de quem não é corintiano, que pena! Não ser corintiano é não viver. Por isso, “nóis é nóis”. E bom dia.

2 comentários

  1. Delza Maria em 23/05/2013 às 17:37

    Bravíssimo! Paixão que é corintiana continua até quando o grito pelo gol morre por falha do artilheiro ou frango do Goleiro. É a paixão definitiva! E "nóis " é "nóis" e está falado. Uma de suas frases, Cecílio, a roubo para mim, pois captou, creio eu o que está impresso no imaginário do torcedor corintiano: "O Corinthians é a maior prova da beleza da humanidade, de como é um privilégio ser humano."

  2. Marisa Bueloni em 26/05/2013 às 22:03

    Nada disso! Quem é tricolor vive e muito!
    Sou apaixonada pelo São Paulo, time que aprendi a amar e a respeitar.
    Foi com o meu lindo que passei a entender e a gostar de futebol.
    Inclusive a regra número 11, do impedimento… Hi hi hi.
    Abração da Marisa

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