A rosa que não nasceu

De início, não entendi, tal a surpresa. Mesmo porque – como na A Banda do Chico – eu me sentia estar à toa na vida. E estava. Quando acontece – se fico à toa – vou a shopping, entre temeroso e espantado. Explico-me: no canto onde me recolhi, vejo poucas pessoas, não há correrias, não ouço ruídos e, muito menos, vejo vitrinas. Então, à toa, maravilho-me vendo gente passar, vitrinas iluminadas, com objetos bonitos, chamativos e, para mim, inúteis, quase todos. Assombro-me: quanto mais fúteis os objetos, mais bonitos parecem. E algumas pessoas também.

Então, a surpresa, quase o susto: “Deus não visitou mais você?” – perguntou-me a mulher, madura sem ser idosa. Não entendi, não sabia de quem e de quê se tratava. Ela sorriu, era uma leitora. E dizia lembrar-se de croniquetas antigas em que eu escrevia das minhas conversas com Deus. Embaracei-me. E admiti à amável leitora, em meio ao tumulto à porta da livraria: “Acho que não…” Ela não entendeu. Mas a culpa era minha, pois eu mesmo não entendi o mal estar em que me vi. Como explicar que a rosa amarela não nascera?

De que me lembre, a última visita de Deus, eu a tive há alguns anos. Penso que há mais de seis, pois eu ainda fumava. Ele chegou, apareceu à porta da biblioteca, espiou acho que com receio do cão preguiçoso. Convidei-o a se achegar sem qualquer medo, garantindo-lhe ser manso o meu cãozinho. Deus entrou, suspirou de cansado, estirou-se na poltrona. Ofereci-lhe uísque e cigarros, embaraçado por não acolhê-lo com mais pompa. “Obrigado, filho. Você sabe que não bebo e não fumo. E os cigarros, quando você irá deixá-los?” – foi o que me disse. Já se foram, pois, alguns anos desde sua última visita, pois eu ainda fumava.

Naquela noite – não sei se Ele apareceu outras vezes sem que eu O visse – Deus dizia-se cansado de tantas caminhadas por entre os homens, perplexo de ver os estragos que fazíamos em seu jardim, queixoso das tolices humanas. E, em especial, amargurado diante da perda de esperanças. “Compreendo tudo, perdôo tudo. Mas não compreendo e não perdôo a falta de esperança. Quem não a tem não confia em mim. Entre amigos, é preciso haver confiança.” Olhou-me fixamente como se indagando se eu confiava, mas, discreto, nada perguntou. Tive medo de conversarmos sobre esperança. Então, levantou-se, olhou através da vidraça, viu a rosa amarela, falou: “É linda essa rosa amarela.” Não consegui vê-la. Ele sorriu, não aceitou nem mesmo um copo d’água, falou-me: “Sempre que a rosa amarela aparecer, eu estarei aqui. Mas é preciso esperança.” E foi-se embora.

Confesso nunca ter entendido o que aconteceu. Pois, naquele meu jardim, havia rosas azuis e vermelhas, e rosas brancas e rosas cor-de-rosa – nunca plantei rosas amarelas. Logo após aquela noite, passei a procurar uma, pelo menos uma como se ela existisse e meus olhos não conseguissem vê-la, enxergá-la. Em madrugadas quentes e em noites frias, eu a procurei e procurei, especialmente quando a saudade apertava e eu queria conversar com Deus. Houve noites em que, cansado da procura e da espera, roubei pétalas de rosas vermelhas e as mastiguei lentamente, enganando-me: sabor de vida na boca, sumo de sonho nos lábios. Foi inútil.

Deixei o shopping com a pergunta da leitora mordiscando-me inteligência e coração: “Deus não visitou mais você?” Na verdade, eu não soubera responder, pois a dúvida se instalou e incomodava como um espinho: “E se visitou e eu não vi?” Pois a casa é outra, outro o jardim. E eu, um outro também. E onde Deus haveria de ver uma rosa amarela, se desisti de roseiras e roseirais, se nenhuma rosa há mais em meu jardim? E esperança, cadê?

Noite dessas, antes de começar a minguar, a Lua Cheia parece ter-se feito ainda mais escandalosa do que é. E luxuriosa, luxuriante. E formosa e provocante, louçã. Não resisti, imantado por uma estranha convicção: ou eu conseguiria ir ao encontro daquela lua cúpida que se despedia, ou ela viria a mim. Seria impossível, naquela noite, não estarmos juntos. Fui. Não sei a razão, mas houve um relâmpago de esperança dentro de mim. Então – na claridade ao mesmo tempo mortiça e reveladora de tanto luar – sou capaz de jurar: ao lado dos manacás, vi uma rosa amarela. Foi por um instante, mas eu a vi.

Agora, estou confuso: não sei se é preciso plantar rosas amarelas para a esperança ressurgir, se, ao inverso, tenho que plantar a esperança para a rosa amarela nascer. Sei, apenas, que ando morrendo de saudade e de vontade de voltar a conversar com Deus.

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