Estrepolias de Deus

“Tempus fugit…” Lá se vão anos desde que, pela primeira vez, ocupei este cantinho cá n’A Província. Mal o vi passar, mesmo porque não acredito seja o tempo que passa, mas nós que passamos por eles. O fato é que, em uma das minhas primeiras croniquetas, contei de meus encontros pessoais com Deus. Apenas alguns poucos alucinados entenderam ter, eu, um pangaré imaginário que me levava pelos caminhos da vida.

E acreditaram, também, no raio-de-luar que, de quando em vez, vinha buscar-me, alçando-me a céus estrelados. Certa noite, tive um romance com a Lua e ela, nove luas depois, fez-se Cheia e deu à luz uma estrelinha azul, filha nossa, de uma noite de amor. Uma adolescente, ao ler, escreveu-me dizendo que sempre via a estrelinha azul e lhe dava as boas noites.

Naqueles tempos, Deus sabia quão tolo eu era, ainda mais do que agora. E apareceu-me inteiramente humano, ao vivo, de carne e osso. Um andarilho. De bata empoeirada, suja à altura dos calcanhares, pés descalços e encardidos, barbas e cabelos desgrenhados, com manchas de sangue que, misturadas à poeira, eram mais da cor bordô do que vermelha. Se estivesse em macacão de metalúrgico, eu pensaria fosse o Lula. Ou o Che Guevara, estivesse de boné. Mas não pensei.

Ao entrar na minha sala, queixou-se do cachorro, queixume apenas formal. Falou: “O cão quase avançou em mim, mas se amansou e veio lamber-me os pés, lavar-me os pés.” Encabulado, perguntei-lhe se ele queria uísque ou cachacinha, sabendo de seu poder de transformar água em vinho, pão em carne. Ele recusou, explicando querer apenas descansar um poucochinho árduas eram suas novas tarefas.

Sentando-se no tapete, Deus desabafou: “Entenderam tudo errado. Tenho que começar toda a jornada novamente. O mercado e os mercadores foram muito além da desordem que fizeram no Templo de Jerusalém. Contaminaram o mundo e os povos. Já morri uma vez, tentam matar-me todos os dias. Mas estou de volta. Aprendi a lição e não serei novamente crucificado. Irei harmonizar e salvar o mundo pela beleza. E milhões de meus filhos terão olhos de ver, ouvidos de ouvir. Você os tem?”

Deus tem português castiço. Não sei como se manifesta em outras línguas. Hesitei: tenho-os, não os tenho? Após descansar, foi-se embora. E, olhando o jardim, falou: “Quando a rosinha amarela aparecer, é sinal de que estarei por perto.” Passei a refletir e pensar mais seriamente nisso. Pois, visitando-me como humano, não sei se Deus se fazia à minha imagem e semelhança, se era eu descobrindo ser feito à semelhança e imagem dele.

O fato é que aquele Deus antropomórfico sumiu, como se nunca tivesse existido. E fiquei – qual criança tola e mimada – esperando que Ele me ensinasse coisas, que mas revelasse, que me desse soluções, esquecido de ser eu mesmo o responsável por encontrá-las, temeroso aprendiz da arte de viver. Esperei à toa. Os meus não eram olhos de ver. E os ouvidos não ouviam. Deus nunca mais retornou como pessoa humana, como se tivesse sido apenas um sonho. Vai daí, fiquei estar perdido de Deus, fiquei sem nada entender, à deriva, um homem solto numa tabua frágil ora em um mar encapelado, ora em águas mansamente onduladas. Acima, o céu; abaixo, as profundezas escuras; aos lados, praias distantes e desconhecidas. Um homem ao léu, para onde ir?

Então, comecei a perceber sem ver desabrochar a rosa amarela. No silêncio, no recolhimento, na solidão interior. Percebi em cada cheirar, em cada sentir, ao apalpar, ao aconchegar. Passei a entender que era como se a expiração de Deus exalasse pelo ar e nas coisas, bastando-me apenas inspirá-la. A expiração dele seria a inspiração minha. E descobri fiapos de Deus no amor de minha mulher, na ternura, no carinho, no desejo, num afago, num sorriso, mãos nas mãos, seios acolhendo a cabeça casada do guerreiro equivocado.

Racionalmente desconfiado, tentei olhar e ouvir tudo o que me cercava, um quase mosteiro, uma cabana na floresta, sei lá. Escamas caíram-me do olhos, o cerume escorreu-me dos ouvidos. A brisa era como um sopro divino e, então, ao alvorecer, passarinhos faziam matinatas, sagüis guinchavam, folhas assanhavam-se ao embalar da aragem. E borboletas voando, Bach trazendo-me o divino ao despertar da manhã, beija-flores voejando e sugando hibiscos.

Começo a ouvir no coração a voz que me diz: “Estou aqui, filho. Eu me faço borboleta para beijar a flor. E me torno colibri para sugar o néctar. Você viu o sabiá disputando o naco de banana com o sagüi? Pois é. Interferi, pois o sabiá precisa menos do mais que o sagüi queria. É assim. Está entendendo?”

Então Mozart silenciou Bach: “Esxultate, jubilate.”

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