A volta dos formigueiros

E os formigueiros – quem diria? – estão, novamente, na ordem do dia. Estudiosos voltam a debruçar-se para compreender a impressionante, formidável e harmoniosa comunidade que as formigas formam. Há um socialismo perfeito. E, com isso, alguns cientistas sociais voltam seus olhares para o velho e ainda insepulto Marx, que sonhou com uma sociedade mais humana. O pensamento de Marx desaguou no que se passou a ter mil nomes: marxismo, comunismo, socialismo marxista, estalinismo, um sem fim de ismos. Na realidade, da mesma forma como Jesus Cristo nunca foi cristão, Marx nunca foi marxista.

Não fosse trágico, seria risível. Mas o fato é que o homem – com sua inteligência desesperada, ao mesmo tempo brilhante e sombria – continua repetindo sua mesma história: inventa para, depois, querer desinventar o que foi inventado antes. E, quase sempre, destruindo o que existe sem saber o que irá colocar no lugar. É basicamente um predador, estranho e fascinante misto de anjo e demônio.

Os formigueiros, pois, passam a ser estudados ainda mais profundamente como exemplo de sociedade perfeita. Assim como as colméias e as colônias de castores. Neles, há governo, trabalho definido, submissão dos mais fracos aos mais fortes, uma meritocracia natural. Quem se der ao cuidado de observar o cotidiano de formigas haverá de abismar-se com a ordem com que tudo funciona. E como milhares delas – como se fossem multidões indo e vindo – não se atropelam, não se chocam, parecendo tomadas de uma consciência plena do espaço de cada qual. E o observador verá que formigas parecem mais civilizadas do que as multidões de pessoas que, em nossas ruas e no trânsito, se agridem e se ofendem gratuitamente, como animais individualistas.

No entanto, o homem é um animal gregário. Desde quando surgiu como espécie, na face da terra. Políticos e administradores de cidades, infelizmente, esqueceram-se disso, seduzidos pelas últimas décadas de economia desregulada, descontrolada, fomentadora de egoísmos cruéis. Ora, os donos do poder estão querendo criar o homem pós-histórico, o homem pós-idéias, seres sujeitos a centro de controles, robotizados, escravizados pelo pensamento único. Isso significa que, para viver, esse homem – que mora em cidades brutalizadas – precisa renunciar a todos os atributos da vida, em situação degradadora de renúncia de sua condição humana.

Os formigueiros voltam a inspirar lições de sabedoria da natureza. E o sentimento humano gregário começa a ser reavivado. Queiram ou não, há indícios de um retorno ao princípio das coisas. O homem, quando se enfiou na caverna, começou a criar a cidade. Primeiro, como um esconderijo. Depois, um montão de pedras, um acampamento que foram os primeiros vestígios de uma busca de vida social. E, depois, a povoação, o santuário, a aldeia, a oficina, o mercado, e, por fim, a cidade. E esta, a cidade, se desenvolveu, ao longo da história, por ter conseguido transmitir, de geração a geração, toda uma experiência cultural complexa, com seus recursos físicos e humanos. Foi uma herança. E essa herança tem nome: a tradição, que é o maior dos dons de uma verdadeira cidade.

Os formigueiros continuam inspirando, pois, as reflexões humanas sobre convivência e coexistência sociais pacíficas e organizadas. A vida humana se repete na alternância entre movimento e repouso. O homem ora troca a segurança pela aventura, ora se cansa da mobilidade para escolher o repouso. Comportamo-nos como as manadas e os cardumes, o que significa carregarmos uma herança animal.

No entanto, por se recusar a ser apenas primata, uma parte da humanidade avançou e criou a civilização, uma tentativa de criar sociedades eficientes como a das formigas, mas com valores humanos que formam uma fraternidades. Esses valores são o amor, o belo, a justiça, a verdade, a solidariedades, a não violência. Uma cidade verdadeira é esse formigueiro com dignidade humana, cuja verdadeira origem é a fraternidade. Se assim não for, o ser humano será apenas um gênero superior de animais. Nada mais do que isso.

Quando, pois, se mergulha na busca de soluções para as cidades tudo será inútil se se ignorar que a memória é o maior tesouro das cidades. Nós, os idosos, não somos o passado. Temos que ter consciência de que, idosos, somos o futuro dos jovens. A herança está num tesouro de continuidade: uma nova geração está convidada a fazer o que a anterior não fez. Como as formigas fazem. Bom dia.

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