Anjos da guarda preguiçosos

Ora, lá já se me foi o tempo de angustiar-me por coisas que não entendo. Pretender descobrir ou saber qual a origem e o fim das coisas, filosofices que tais não mais fazem parte de meu cotidiano. Aprendi a duvidar de tudo e, portanto, a crer em tudo e de tudo descrer.

Há poucos dias, li o artigo de alguém que, dizendo-se da área médica, orientava os leitores para dispensarem-se do café da manhã, praticando o jejum matinal. Segundo o articulista, jejuar pela manhã faz bem à saúde, otimiza o organismo e prepara o espírito para a faina do dia-a-dia. O fundamento científico do homem estava, segundo ele próprio, no livro do Eclesiastes. Portanto, se o Eclesiastes falou, falado está.

Sinto-me apalermado. Não com palpites sobre jejum, mas com a condição humana, com essa perplexidade que leva as pessoas à impotência e, de certa forma, à rendição. Vi, na televisão, a mãe chorando com timidez, contidamente – mas com a filhinha morta nos braços. Uma bala perdida matou a criança. E a mãe – rendida a crenças e devoções evangélicas – apenas sussurrou, contendo o pranto e a dor: “Foi a vontade de Deus.”

Lembro-me sempre de uma gravura – e nunca mais a vi em lugar algum – que me parecia tétrica. A casa estava no alto da colina. O caminho era de terra. Duas crianças aproximavam-se da ponte ao entardecer. O céu, com cores entre o roxo e o violeta, era de crepúsculo. Por trás de arbustos, na outra margem, uma figura horrenda, semelhando lobo faminto, estava à espreita. Sobre as crianças, porém, pairava um anjo da guarda, asas imensas, protetoras. E eu nunca soube o que aconteceu depois, se o anjo ajudou, se o lobo comeu…

Não sei se existem anjos da guarda. Se existem, devem estar cochilando. Ou, de tão antigos, já se aposentaram. Pois não consta que novos anjos surgiram após aqueles que, em livros santos, formavam “exércitos celestes”, a “corte de Deus”. Parece ser de Isaías a ode, cantando a função dos anjos, de “adorar e louvar a Deus”. De minha parte, nunca entendi gostasse, Deus, de ser “louvado e adorado”, uma forma de narcisismo esquisita. Falava-se também – e está escrito, não sei onde – que anjos cuidavam de pessoas e serviam de mensageiros, como o que levou ordens para Abraão. Crianças e jovens eram, pois, xodós de anjos da guarda. Dizia-se.

Ora, tão humana e limitada, a inteligência não me permite entender que anjos tenham tanto trabalho ao mesmo tempo: adorar e louvar a Deus, levar mensagens, tocar trombetas, dedilhar harpas, ajudar pessoas, enfeitar pinturas de artistas nas imensas catedrais. Duas figuras de anjos há que me encantam: o que toca violino para São Francisco de Assis; outro que, com uma seta, chega ao coração de Teresa d’ Ávila, incendiando-o da chama divina. E o com cara de malandro, o Cupido, que faz estragos em corações? Com tanto trabalho, eles não podem ser eficientes. Cansam-se. Daí, talvez, os cochilos eternos.

Bem que eu gostaria de acreditar neles. A Idade Média foi o momento mágico desses seres celestes, de coros e de hierarquia de anjos: serafins, querubins, potestades, arcanjos. A iconografia é deslumbrante. Anjos enfeitam e dão graça às igrejas. A adorável figura do menininho nu e gordinho, o “putto”, traz mais encanto às artes sacras. Três arcanjos poderosos tornam-se, no medievo, protetores até de nações: Miguel, Gabriel, Rafael. Anjos silenciaram a filosofia do mundo. Apenas quando perderam o prestígio, a humanidade retomou o pensamento. E tentou resolver por si mesma o que, antes, se atribuía a anjos e arcanjos. Desde essa época, talvez, anjos da guarda passaram a cochilar.

Mortes brutais de crianças e de jovens fazem-me duvidar de que Deus participe disso. Não pode. Pois seria de uma crueldade absurda e insuportável imaginar que tragédias e dores e luto e mortes ocorram, enquanto anjos ficam louvando e adorando a Deus. Onde estava o anjo da guarda dessa criança quando a bala perdida a atingiu? Onde estava ele, que não previu a dor da mãe, a tragédia sobre uma família que nada mais fez, na vida, senão lutar? Onde estão ou o que fazem anjos da guarda de crianças perambulando pelas ruas, de pequeninos enfermos em hospitais, de jovens que são atingidos pela dureza da vida? A morte de cada criança e de cada jovem apequena a grandeza da vida.

Se anjos da guarda existem, os dessas crianças estão cochilando ou ficaram preguiçosos. E ninguém precisa de anjos preguiçosos.

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