Assombrações no centro

pictureUma das nossas fotos antigas mostra a Praça José Bonifácio quase em ruínas, numa das tantas mudanças que nela se fazem. Quase todas, na verdade, como simples maquilagem. Para mim, já escrevi sobre isso, é preciso exorcizar o centro de Piracicaba. Há assombrações demais. E é besteira afirmar que não se crê em bruxas, pois elas existem.

Retomo o assunto dessas assombrações. Pelo que sei, a encrenca começou com a Igreja de São Benedito. Encrencou-se, quem se atreveu a mexer a mexer com o histórico templo dos escravos, do santo da devoção de tanta gente, ele e Nossa Senhora do Rosário, sempre juntos. Sei pouco dele, mas não brinco. Luciano Guidotti quis derrubar a igreja para fazer a Praça dos Três Poderes. Morreu. Salgot tentou mudanças, foi cassado. Cássio Padovani ameaçou reformas, também morreu.

Quem for incrédulo pergunte, ao Adilson Maluf, a promessa que precisou fazer para a senhora mãe dele, a saudosa dona Olinda, logo após eleger-se prefeito. Devota do santo, conhecedora do mistério, ela falou mais ou menos assim: “Mexa com tudo, menos com São Benedito.” Adilson – que tem, também, Benedito no nome – obedeceu. E sobrevivei Está aí até hoje.

As propostas de revalorização do centro da cidade, de urbanização, nenhuma delas, acho eu, dará certo sem exorcismo. Além de Benedito, o Preto, o centro tem a tragédia do Comurba, almas penadas que vagaram até Lazinho Capellari vencer as ruínas. O sangue de Almeida Júnior ainda mancha a calçada de onde foi o Hotel Central, essa outra assombração: derrubado, deu lugar a um mostrengo de garagem que já deu confusão. João Herrmann nunca mais se elegeu prefeito. Pois mexeu com os monumentos, mexeu com fantasmas de 1932.

E tem o galo do Luís Guidotti, irmão de João e Luciano. Por ordem ninguém sabe se de um, se de outro – eu acho que foi do João – mataram o galo de Luís. Foi em 1958, na rua São José, no quarteirão que vai da rua Governador à Praça José Bonifácio. Ao lado do Teatro São José, João Guidotti tinha sua loja comercial e, próximo dela, a GMC, de Luciano. Na outra calçada, ainda solteiro, eu morava com os meus pais. Ao lado de nossa casa, ficava uma sede de jogos carteados do XV, bem em frente à loja do João. Justamente naquela casa, Luís Guidotti inventou de colocar um galo, o símbolo da candidatura de Adhemar de Barros, provocação ao pessoal do Carvalho Pinto, cujo símbolo era o pintinho. Era o galo contra o pintinho. Luciano e João estavam com o pintinho e Carvalho Pinto. Luís com Adhemar e o galo.

O quarteirão entrou em pânico, o medo do sangue quente dos irmãos Guidotti, Luís, atirador famoso, o “Rei do Gatilho”. O galo do Luís infernizava amigos e enlouquecia adversários. Digamos – para não fazer intrigas – que foram os “carvalhistas”, mesmo assim, acho que a mando do João. Se o Cidão estivesse vivo, eu diria que foi ele próprio, Cidão, cumpincha de Luciano. Como está morto, não digo. Fosse, porém, para contar, eu contaria assim: Luciano queria estrangular o irmão Luís por causa do galo; então, João, para Luciano não estrangular Luís, foi lá e mandou o Cidão matar o galo do Luís. E Cidão matou.

Novas assombrações. Com a morte do galo do Luís, nada mais deu certo também na rua São José. O “Coronel” esmilingüiu, o São José foi de embrulho, a Casa Guidotti parou, a GMC de Luciano sumiu, a loja de meu pai quebrou, “O Diário” faliu, João Arruda tirou o cartório de lá, bancos desapareceram, o Tanaka foi parar na rua do Porto onde definhou e a gloriosa Tabacaria Tupã fechou. Pelo sangue do galo do Luís.

Candidatos a prefeito deveriam colocar em seus planos de ação: exorcizar o centro. Quem avisa amigo é. Bom dia.

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