Sabedoria encarnada

pictureUma das mais belas reflexões que conheci foi a de um professor de minha juventude, que nos embriagava a alma querendo provar-nos sermos, os seres humanos, mais excelentes do que os deuses. Na verdade, ele tentava convencer-nos da, para ele, desimportância de definições, da tolice de se buscar explicações para tudo. Ele nos propunha a fruição do momento presente, o desapego a tantas paixões, numa mistura confusa mas fascinante de rastros de céticos, estóicos e também dos cínicos.

Aquele professor falava de sabedoria encarnada, a que compõe um todo, corpo, alma, espírito, o homem participando de tudo, como se fosse, realmente, a poeira de estrelas que sobrou do Big Bang. Se tudo começou com uma explosão cósmica, somos, pois, poeira de estrelas. Se não verdadeiro, belo pelo menos é. O sábio encarnado seria competente para ter, no finito de si mesmo, um pouco de todo o infinito. Por isso, seria, sem contradição, santo e pecador, boêmio e asceta, embriagando-se do vinho mas, também, delirando de seu jejum.

Penso muito em professores antigos, na escola antiga. Mais do que professores, eram mestres, pois tinham consciência de exercerem o magistério, o senso do magister. E, nesta semana, duas circunstâncias me levaram a refletir ainda mais em torno das tolices oficiais e mercadológicas que se fazem em torno da educação dos brasileiros. Ora, não há interesse da classe política em criar excelências na educação. Pois um povo educado reflete, tem referenciais para o discernimento mais amplo. Um povo formado apenas pela educação formal nem sempre consegue a pureza democrática. Mas dificulta o aventureirismo coletivo, a ação entre amigos promovida por políticos desqualificados. E desclassificados.

Aguardando, numa repartição, providências burocráticas de uma jovem funcionária, incomodei-me ao vê-la mergulhada numa montanha de papéis, rubricando, carimbando, fazendo cálculos. Imaginei-a ao término da jornada de trabalho, massacrada, consumida. Ela discordou: “Esse trabalho é o paraíso comparado ao que fiz por mais de 15 anos.” E completou: “Fui professora. De crianças.”

Há algum tempo, aconteceu o desabafo de um professor baiano, de física, com cálculos e avaliações angustiantes. Seu salário, valorizado por ter formação universitária, é de cerca de 600 reais, prêmio de educador brasileiro. E o moço, com seus cálculos, conseguiu mostrar que um parlamentar, no Brasil, vale 334 professores. Por mais escandaloso pareça, deveria, penso eu, servir-nos de referencial, em sentido inverso: este país começará a trilhar o caminho da seriedade quando um professor valer 334 parlamentares. No mínimo.

Tive o privilégio de ser próximo de uma das mais apaixonantes figuras de educador paulista: nosso conterrâneo Thales de Andrade. Serve de exemplaridade a atitude que ele tomou, como professor, ao ver que a grande maioria de seus alunos fora reprovada numa prova por ele próprio elaborada. Houvera reprovação maciça. Thales devolveu todas as provas, retomou as aulas a respeito do tema que abordara e se desculpou: “Se quase todos os alunos não aprenderam, a culpa foi minha, do professor que ensinou mal.”

Ora, o Brasil constatou um índice espantoso de analfabetos funcionais entre crianças e moços. Estes, antes de serem culpados, são vítimas. Falta, ao Brasil, a sabedproa encarnada de um Thales de Andrade. Bom dia.

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