Responsabilizando os jesuítas

pictureCerta vez, pessoa de minha grande estima me telefonou dizendo-se magoadíssima por ter-lhe, eu, feito severas críticas. Espantado, perguntei-lhe onde, quando, como? Ela não soube responder, pois não lera. Apenas ouvira dizer. E acreditara no falso diz-que-diz-que

Lembrei-me, então, de um episódio para mim doloroso e do Deonísio da Silva. O episódio – de que nunca me esqueci – foi o rompimento de um relacionamento precioso pela má interpretação da palavra talento. Eu dissera que a pessoa não tinha talento para conversar com adolescentes, com o significado de dom. Para ela, talento significava capacidade. Que, portanto, eu a chamara de incapaz. E a referência fora apenas a talento, que as pessoas podem ter para algumas coisas e não tê-lo para outras. Tudo ruiu e não houve como recolher sequer os cacos.

Quanto ao Deonísio da Silva, notável escritor, recordo-me de uma análise furiosa que ele fez a respeito do adultério da Capitu, no “Dom Casmurro”, numa antiga revista da Academia Brasileira de Letras. Deonísio dizia tratar-se do adultério mais declarado, comprovado e confessado do mundo, citando o também notável Dalton Trevizan que decretou: “Se Capitu não traiu Bentinho, então Machado de Assis é José de Alencar.”

Ora, na questão famosa, não houvera ambigüidade alguma em Machado de Assis, senão o refinamento costumeiro e sutil: Capitu traíra Bentinho com o Escobar, o filho dela era deste. Está tudo lá. Desde os meus tempos de ginásio, sei disso, apesar de os padres – gaguejando ou pigarreando – evitarem, à época, o assunto. Eles preferiam enfatizar o soneto “A Carolina”, tido como o mais perfeito em língua portuguesa, o pranto de Machado diante da morte da amada, “querida, ao pé do leito derradeiro em que descansas dessa longa vida….” Quanto a Capitu, só não entendeu quem não quis. Ou quem não leu.

E é disso que Deonísio escreveu: dos que comentam sem ler. Dos que sabem de ouvir dizer. Da mania brasileira de discutir o que foi escrito sem ter lido. Pois, na verdade,muitos textos polêmicos são muito “discutidos”, sem serem “lidos”. Deonísio põe a culpa nos jesuítas, fundadores de nossas primeiras escolas. Contrapondo-se a Lutero e buscando evitar a vulgarização da leitura da Bíblia, eram eles que, nos púlpitos, liam, interpretavam e falavam. Com outros textos e livros, também: a catequese e os ensinamentos eram orais. Os ouvintes aprendiam, repetiam o que ouviam. Tornar-se “papagaio de repetição” passou a ser vocação nacional. É o “ouvi dizer”, o “disseram por aí”. E, como quem conta um conto aumenta um ponto…

Nos últimos anos, escolas e os chamados cursinhos pré-vestibulares vêm desencadeando verdadeiras batalhas para colocar batalhões de alunos em universidades. Em alguns deles, fez-se uma troca de ordem prática – “time is money” – à antiga moda jesuítica: alunos não precisam ler as grandes obras; as histórias são-lhes contadas pelos professores ou apresentadas em sinopses. A suposição é de que, pela simples narrativa, estudantes sintam-se aptos para conhecer o autor, sua obra, seu estilo. Se o professor considerar Paulo Coelho superior a Machado de Assis, o aluno aceita e repete. E não há discussão.

O Ministério da Educação comunicou, há algum tempo, que apenas 7% dos alunos, saídos de nossas escolas, entendem o que lêem, mostrando-se capazes de analisar e interpretar. Disso, não se pode mais culpar os jesuítas. Azar dos escritores, azar dos jornalistas. E do país. Bom dia.

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