Avenida Brasil

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A vida é movimento. E, na realidade, mesmo quando parece cessar, ela continua, prossegue em algo ou em alguém. Talvez, um movimento circular que se vai confundindo no encontro do começo e do fim. Quando se pensa, pois, que algo se acaba, vê-se que, na verdade, está apenas começando. Ou recomeçando.

Torna-se, assim, fascinante descobrir como ocorre – no tempo e no espaço – essa consciência criadora, produtiva. Quando o movimento é abrupto, assusta, incomoda e, muitas vezes, é mais destruidor do que criativo. Quando, no entanto, se faz com harmonia, vê-se como é verdadeira, real, fundamental a ideia de transmissão, de herança. É, então, que se pode aceitar a comparação de a vida ser, realmente, como uma corrida de bastão, na qual este é sempre entregue, pelos que estão na frente, aos que chegam logo atrás. De mãos em mãos, passa-se o bastão. E a vida continua, renovada, preservada em seus valores fundamentais.

Penso nisso pela ação que o jornalista e mestre Evaldo Vicente vem fazendo em Piracicaba muito além de sua atividade profissional. E com a mesma riqueza. Evaldo – com sua inteligência e cultura privilegiadas, que ele tenta ocultar em suas modéstia e humildade presbiterianas – assumiu, naturalmente, a uma posição de liderança entre duas gerações, as que – como a minha – já se vão, e as que chegam. Tornou-se o guardião de uma história que precisa ser contada e preservada. E, assim, também um mestre em transmiti-la aos que chegam.

Nos últimos tempos – e com uma inspiração a que dou nome de predestinada – Evaldo Vicente começou a reunir grupos de velhos amigos que, pelos compromissos da vida, estavam distantes uns dos outros. Um jantarzinho aqui, outro acolá, o grupo se acostumou a reunir-se, novos companheiros foram-se juntando e, agora, formamos uma verdadeira tribo de anciãos do qual o ainda jovem Evaldo é o cacique. E quanta riqueza memorialística conseguimos recuperar! E quantos  tesouros de história acabamos por resgatar! O Evaldo, cacique, se torna também o escrivão desse acervo oral, seja lá isso possível ou não.

O último encontro, o Evaldo programou-o para um restaurante que desconhecíamos. Falou: “É um espaço londrino em Piracicaba”. Confesso que, de minha parte, relutei, pensando em um lugar frio, sofisticado e sem graça. E, preconceituosamente, imaginei aqueles espaços de “novos ricos” em que Piracicaba anda se especializando, nessa sua caminhada destrambelhada em direção a lugar algum. Pois, agora, a moda é destruir o passado e nada colocar no lugar. Feliz engano: que susto levei, que agradabilíssima surpresa todos nós conhecemos!

Fomos levados ao restaurante Avenida Brasil, na Cidade Jardim. Minha primeira impressão: a de entrar num pedacinho de céu. Pensei fosse confusão do Evaldo e, então, ele nos tivesse levado a uma galeria de arte, a um recanto de serenidades, algo que me soava como aquela música imortal “No jardim de um mosteiro”, de Ketelbey.  O ambiente era de tal forma aconchegante, reconfortante que o pensamento me surgiu de imediato e espontâneo: “Este lugar foi sonhado por alguém. É o sonho de alguém. “ E é. Um sonho que se torna ainda mais afável por ser de um piracicabano, do engenheiro Ignácio Metler”, que montou – pedacinho por pedacinho – uma verdadeira ilha de conforto e de refinamento. Com o aconchego de Piracicaba.

Escrevi, de início, ser, a vida, movimento. E vi esse movimento de maneira esplendorosa no Avenida Brasil: uma casa moderna, refinada, artística, acolhedora, com serviços primorosos e com uma característica fundamental: fiel às raízes piracicabanas. Lá, ao se pensar estar em qualquer lugar refinado do mundo, descobre-se estar em Piracicaba, a velha Piracicaba remoçada, renovada, acolhedora e jovial. Garçons que tocam violino, proprietário que canta ao violão, um piano a ser dedilhado, lugar para conversas particulares e animações em grupo… Em Piracicaba. Avenida Brasil. E com o elegante e refinado caipiracicabanismo do Ignácio Metler. O bastão foi passado a uma nova e esplendida geração. Bom dia.

1 comentário

  1. Inácio Donizete Metler. em 19/09/2014 às 13:23

    Caro Cecílio, boa tarde.

    Não tenho palavras e nem a sua refinada performance de escrita para descrever o que senti com este tão lindo texto, só posso dizer muito obrigado, obrigado mesmo.
    São estes os motivos que estão transformando nosso cantinho Avenida Brasil, em referencia Piracicabana.
    Abraços.

    Inácio Metler.

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