Construção pelo belo

Belo 2As escolhas errôneas – e que se transformaram em estilo de vida –compõem uma das tragédias dos nossos tempos. Há um contraste e, também, um paradoxo incrível entre as fantásticas descobertas da ciência e a tecnologia e a civilização que surgiu nestas últimas décadas. Tendo quase tudo para compormos uma humanidade generosa, mais justa, menos sofrida, acabamos por optar pelo feio e ruim, pelo egoístico, pela violência e pelo confronto.

A vida em sociedade se transformou em verdadeira guerra, mesmo quando não declarada. A crueldade de uma visão econômica absolutamente individualista e materialista nos empurrou a poços profundos de solidão, de insatisfação e amarguras. Chegamos a um ponto em que o ser humano, pelo menos no Ocidente, não sabe responder sequer para e pelo quê está vivendo, qual o sentido que tem dado à própria vida. Tornamo-nos, ao mesmo tempo, produtores e consumidores: quanto mais produzimos mais consumimos; quem pouco produz quase nada consome. E quem pouco consome cai para o degrau das inutilidades, pois é um inútil para os senhores da economia e das finanças.

Tem havido a vitória do feio, pelo menos aparentemente. É como se o mundo se tivesse transformado em algo sujo, ruim de se ver, assustador de se viver. Destruímos delicadezas, solidariedades, fraternidades e continuamos pensando seja possível destruir o belo e o bom de maneira definitiva. Mas será tentativa inútil, ainda que mostre uma vitória aparente. Pois é o belo que constrói e é o belo que irá nos salvar desse tsunami de lixos culturais e morais que nos esmagam.

O que acontece em São Paulo nestes últimos dias é testemunho de quanto o povo – independentemente de nível cultural – anseia pelo belo e virtuoso. A informação de que seriam distribuídos 40 mil ingressos gratuitos para espetáculos teatrais em São Paulo levou multidões imensas a fazer filas a fim de obter o seu ingresso. Era a resposta para os pessimistas ou tolos que sempre disseram o povo não gostar de teatro ou de arte, falácia que serviu para alimentar pequenas elites que se consideraram proprietárias do senso estético. O povo ama a arte. E o teatro é paixão popular desde as funduras dos séculos, já na longínqua Antiguidade. E, ora, o que foram os circos mambembes do passado, indo de cidade em cidade, senão pequeninos teatros ambulantes, comovendo e emocionando o povo com peças e historietas de amor e de dor?

Uma das noções do belo é “perfeição sensível” e é dela que nasce a Estética. Platão proclamava a beleza como manifestação do bem e, para ele, o belo tinha o privilégio de, entre as substâncias perfeitas, ser a mais evidente e a mais amável. Beleza, amor e bem estão unidos num só amálgama. E, se levados ao povo de maneira sistemática e perseverante, é absolutamente impossível, então, não construirmos uma nova sociedade e uma nova humanidade. Beleza e cultura se transmitem por osmose. Assim, também, como a feiúra e a violência nos têm atingido por contágio.

De quando em quando, conto, até como testemunho, do que aconteceu em minha própria casa. Trabalhava comigo, como doméstica, uma jovem quase em véspera de casamento. Ela e o noivo formavam um belo casal, moços simples, de origem humilde. A moça acostumou-se a meus hábitos de trabalho, pois, desde a mocidade, escrevo ao som de músicas clássicas. Dia e noite, a casa era e é embalada por sons suaves. Certa vez, com meu automóvel na oficina, pedi carona ao noivo da jovem empregada que, todo solícito, me ajudou. Ao entrar no carro, ouvi sons maviosos, não sabendo se vinha de rádio ou de cd. Era Vivaldi. Surpreso, interessei-me e o moço me explicou que ela, a jovem doméstica e sua noiva, gostava tanto de ouvir as músicas de meu cotidiano que os moços passaram a colecionar obras dos grandes clássicos. E estavam fascinados.

Um dia, rádios e emissoras de tevê, publicitários haverão de ser vítimas também da monstruosidade que produzem com a poluição sonora que infecta a alma do povo. O feio e o mal fogem, assustados, quando deparam com o belo e o bom. A escolha, porém, é nossa. E já fomos longe demais com essa omissão coletiva. É preciso, pois, acreditar na construção pelo belo e pelo bom. Que outra saída redentora pode haver? E Bom dia.

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