Descobrindo Ratzinger

RatzingerO ser humano é complicado. E, às vezes, acho que não tem jeito. Quase sempre, mais do que dos outros, somos vítimas de nós mesmos. De nossa preguiça mental, dos descuidados, da acomodação diante do que nos pareceu verdadeiro sem que o tenhamos questionado.

Uma de nossas graves dificuldades – pelo menos, já o vi por mim mesmo – está no  quase hábito do “congelamento de avaliações”. Inúmeras vezes – para não dizer que quase sempre – “avaliamos” algo, uma pessoa, um acontecimento e já o “congelamos”, como se fosse avaliação definitiva e final. Se alguém se nos apresenta, à primeira vista, antipático ou grosseiro, é quase certo que congelaremos essa avaliação mantendo-a por tempo indefinido. Até que, algum dia, venhamos a descobrir que aquele “antipático ou grosseiro” era uma pessoa diferente.

Confesso que quebrei a cara com o Cardeal Joseph Ratzinger, antes mesmo de ele ter-se tornado o Papa Bento XVI. Deixei-me convencer por comentários dos meios de comunicação, da ala frustrada da antiga Teologia da Libertação e, em especial, pelo conflito teológico que o levou a calar o então Frei Leonardo Boff. Para aquelas áreas do pensamento – que sobre mim exerceram forte influência – o Cardeal Ratzinger era um retrógrado, conservador empedernido, teólogo ultrapassado, o “Grande Inquisidor”. Acreditei nisso.

Muito recentemente, ganhei um livro de um amigo – escrito pelo ensaísta Patrice de Plunkett e editado em Portugal – que faz um estudo a respeito de Joseph Ratzinger, com testemunhos de grandes personalidades. Confesso não ter-me interessado, mas agradeci a gentileza. O título do livro: “Bento XVI e o Plano de Deus”. Por antecipação, imaginei qual seria o conteúdo: visão estreita do mundo, da vida, da religião, da Igreja Católica, da própria humanidade. E, como quem não quer nada, de quando em quando comecei a folhear o livro. E fui surpreendendo-me. De repente, então, fui agarrado pela leitura, cada vez mais surpreso e surpreendido com novas informações, com outras revelações e – ulalá! – lá me vi,eu – que havia congelado o teólogo – completamente encantado com a leitura, com as informações, com o pensamento de Ratzinger, que nada tinha ou tem de retrógrado ou de ultrapassado.

Resultado: fui seduzido pela sabedoria, pela cultura, pela visão universal daquele Cardeal Ratzinger que – para mim e para muitos – não passava do “Grande Inquisidor”. Terminei o livro, quis mais, fui procurar outros, encontrei diversos, fucei todos os sebos pela internet e o pensamento de Joseph Ratzinger foi-se-me clareando, na revelação de um humanista cristão de dimensão superior, que nada tem nem de conservador, nem de integrista. Descobri que eu lera alguns documentos do Papa Bento XVI, mas com uma leitura preconceituosa, conseqüência do meu “congelamento de avaliação” do cardeal que foi o grande companheiro de João Paulo II. Li sem ler.

Estou, agora, com uma pilha de livros de e sobre Joseph Ratzinger. Venci a vergonha de minha avaliação anterior e me vejo altamente excitado para ler, continuar lendo, querendo mais – pois o fato é que estou tomando um banho de cultura, de sabedoria, de conhecimento, de universalidade. Um desses livros é a reprodução de um debate entre Ratzinger e o filósofo ateu francês, Paolo D´Arcais. É um duelo de elegância, quase que um balé de refinamento cultural, uma cachoeira de cultura apresentada sob aspectos divergentes.

Penso nos gregos – para os quais o maior prazer do homem está no conhecimento – e me sinto pequenino, também envergonhado por pretender dar opiniões sobre temas e questões que exigem muito mais do que informações obtidas por veículos de comunicação ou por autores que costumam falar não de um assunto, mas contra ele. O fato é que acabei descobrindo um outro Joseph Ratzinger e me sinto apalermado diante de tanta sabedoria. E lamentando por, durante tantos anos, ter feito um tolo “congelamento de avaliação”. Felizmente, ainda me sobrou tempo para descobrir tesouros que não imaginei existissem. Bom dia.

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