Desesperado desabafo

Em 1972 – portanto, há mais de 35 anos – ficamos feito Quixote numa luta que acabou levando-nos à prisão domiciliar. Juizes e promotores permaneceram imobilizados, delegados estavam omisso e policiais, envolvidos. As drogas tinham chegado a Piracicaba e, como sempre, de mãos dadas com a prostituição.

Piracicaba, à época, silenciou, acovardada ou incrédula. Algum tempo depois, esta cidade – “Atenas Paulista”, “Florença Brasileira”, “Pérola dos Paulistas” – era vista como “Amsterdã Brasileira”. A preguiça e a omissão de autoridades e das elites criaram o poço onde caímos. Então, morreu, por “overdose”, uma infeliz jovem, de família milionária e conhecida. Apenas depois disso, alguns olhos se abriram, mas tragédias já haviam ocorrido. Policiais corruptos, autoridades comprometidas, todos estavam soltos, intocáveis. O jornalista foi preso. Mas sobreviveu. Desgraças, porém, tinham acontecido.

Diante da prostituição escancarada – de mãos dadas com drogas – autoridades escondem-se por trás do falso respeito ao “direito de ir e vir”. Isso é falso. Não há direito ao “trottoir”, nem a usar ruas e esquinas como comércio de drogas. A prostituição e o tráfico chegaram aos menores. Já escrevemos a respeito disso há cerca de cinco anos e as coisas se agravam. O que se vê na Rua do Porto, à noite – ainda território livre de banditismo – deveria ser o alarma final. Alguns já ficamos roucos de tanto urrar. Prefeito, vereadores, autoridades têm, pelo menos, o dever de urrar juntos. Senão, acabaremos, ainda, criando o título de “o traficante do ano”.

Há exatos cinco anos, quando insisti na necessidade do enfrentamento da criminalidade na Rua do Porto, uma jovem leitor me escreveu – e eu divulguei o teor da carta – num desabafo doloroso e comovedor Parece-me oportuno voltar a divulgá-lo, preservando a identidade da moça e omitindo trechos que pudessem comprometê-la. Com isso, espero interromper bocejos de autoridades. E incomodar elites insensíveis, no seu tolo “melhor dos mundos”. Escreve, a moça:

 

“Olá, Cecílio! Tudo bem? (…) Sinto que posso fazer um desabafo!

Tenho 25 anos e (…) faço parte de uma geração que fez e faz uso de muitos tipos de drogas, muitos mesmo, a quantidade só tem aumentado! Usamos drogas, creio eu, com a falsa ilusão de que elas nos trarão mais liberdade, mas o que acontece na verdade é que elas transformam nossas vidas numa prisão, somos prisioneiros de nós mesmos!Graças a Deus, consegui abandoná-las. (…)

Freqüento a Rua do Porto ( da madrugada) há 10 anos, já cheguei a declarar ser ali minha casa, mas nos últimos tempos não tenho mais ido, estou com medo de freqüentar a “minha casa”, pois sei q. a qualquer minuto por causa de um “papel” de cocaína uma briga pode começar a rolar , uma arma pode aparecer………tiros, sei lá. Essas coisas têm acontecido!Estou te mandando esse e-mail como um desabafo mesmo e pra dizer q. na minha opinião o maior problema da humanidade é o uso e abuso de drogas por jovens como eu. É uma realidade q. ñ é aquela lida nos jornais, ela está aqui e agora, dentro da família, junto dos amigos, enfim é a minha realidade, e eu tenho muito medo dela!

Queria te pedir pra ñ desistir! Ñ desista dessa Piracicaba q. eu adoro tanto (…)”

Quem tiver olhos de ver veja. Quem tiver alma de sentir reaja.E bom dia.

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