Deuses do futebol e Procon

Adriano e RonaldoConfirma-se, cada vez mais, nada haver de novo sob o Sol. A paixão humana por jogos é ancestral e, sempre que medito sobre isso, remeto-me ao “Homo Ludens”, monumental e definitiva obra de Huizinga sobre a questão. Muito antes de gregos e romanos, jogos fascinavam o indivíduo e as multidões. Com Grécia e Roma, eles se tornaram importantes questões de Estado, numa simbiose perfeita entre o profano e o sagrado. Os grandes anfiteatros e arenas se transformaram em espaços onde o dessacralizado se ressacralizava, para êxtase êxtase das multidões. O Circo, especialmente quando já tem o pão, é fundamental para as sociedades humanas.

Na última quarta-feira, não apenas o Brasil, mas grande parte do mundo parou sob a hipnose do futebol, com a disputa entre equipes formidáveis, como da Internazionale e do Barcelona, com seus deuses pagãos, apaixonantes e sedutores. No Brasil, os jogos do Santos e do Atlético Mineiro e, em especial, do Corinthians e Flamengo mobilizaram todos os veículos de comunicação, arregimentando incríveis massas humanas que, nos anfiteatros modernos, deram espetáculo deslumbrante de alegria, paixão, entusiasmo e volúpia, chuva e suores misturando-se, bandeiras desfraldadas, gritos de guerra, hinos de paixão.

Na verdade, a palavra é essa mesma: paixão. Pois, não fosse ela, muito do que tem acontecido deveria ser questão a resolver-se junto ao PROCON, como propaganda enganosa, entrega de produto falsificado, promessa de qualidade não cumprida e outras, muitas outras. No Maracanã, criaram-se dois deuses que disputariam, entre si, a primazia das paixões coletivas: Ronaldo, o Fenômeno, e Adriano, o Imperador. Ambos gordos, fora de forma física, atletas relaxados, com problemas muitos, com exceção de financeiros, que deuses do panteão greco-romano não deveriam ter. A disputa, fosse mais honesta, deveria ser para se avaliar qual dos deuses do futebol está mais gordo, mais despreparado e mais desrespeitoso perante a multidão de religiosos que o seguem na fé futebolística.

Tirante a paixão, Ronaldo e Adriano são atletas mais próximos do grotesco do que do admirável e, como pessoas, mais dignos de compaixão do que de paixão. Na verdade, há um grande circo montado – com interesses financeiros altíssimos, muitos deles inexplicados – explorando a boa fé do povo e a quase alucinação de fanatismo por seus clubes e ídolos. O caso de Ronaldo Fenômeno se aproxima do patético, um ex-atleta arfando, arrastando-se, tropeçando nas próprias pernas, tendo a bola como sua inimiga. E Adriano, o Imperador, à espera de que algo aconteça, perplexo como se não soubesse onde se encontra, se num campo de futebol, se numa catedral do povo, se num botequim de favela.

O jogo alucina, apaixona, vicia, cega. E, nessa cegueira, traz ilusões que se confundem com esperanças, num círculo de expectativas e de decepções que se fecha para recomeçar novamente toda semana. Essa cegueira alcança, pelo que se vê, de maneira especialíssima, a nós, corintianos, diante de um Ronaldo mítico que vai perdendo, vertiginosamente, a antiga nobreza futebolística. A cada jogo, espera-se a ressurreição de Ronaldo. Mas ele volta a morrer, antes de ressuscitar. E a ilusão renasce, como essa, agora, da próxima quarta-feira, segundo jogo entre Flamengo e Corinthians: “Agora, Ronaldo vai. A partir de agora, ela voltará a ser o Fenômeno.” Nossa cegueira, de corintianos, nos impede entender que Ronaldo acabou, que um dos maiores jogadores do mundo em todos os tempos é apenas uma figura caricata, próxima do ridículo. Não queremos enxergar, talvez porque precisemos nos enganar. Ronaldo é uma ilusão, falsa ilusão, mas necessária para a paixão corintiana manter-se viva. Pode até acontecer que, no próximo jogo, ele nos deslumbre. Mas, em vez de Fênix renascida de suas próprias cinzas, será apenas um outro crepúsculo de deuses.

Na verdade, porém, essa enganação de marketing futebolístico que se faz em relação ao povo está se tornando um caso para PROCON, senão de Polícia. Bom dia.

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