E a violência está apenas começando…

violencia urbanaQuem tem esperanças não pode ser pessimista. Confesso-me um homem de esperanças. No entanto, isso não me impede de ver o avolumar-se de nuvens sombrias e ameaçadoras, cada vez mais sombrias e ameaçadoras. O admirável mundo novo que estamos vivendo – de sofisticadas tecnologias, de descobertas realmente fantásticas – trouxe, consigo, efeitos e resultados que nem sequer conseguimos, ainda, imaginar. Tanto para o bem quanto para o mal.

Estamos diante do caos mundial, rebeliões, revoluções, protestos, resistências, rupturas que não mais precisam sequer de explicações para se justificar. Apenas explodem. E, no meio das massas populares, cada  indivíduo tem o seu próprio motivo que, somando ao de outros, se transforma em reação coletiva. O descontentamento é geral, universal. E liberdade é apenas um pretexto, pois mesmo em democracias – que se dizem livres mas que não passam de imposturas – há a liberdade para se clamar por liberdade. A causa é mais profunda. E está na alma popular, na intuição, no medo de algo que existe mas que se não apresenta.

A humanidade viveu a primeira e a segunda revoluções industriais. Lembremo-no, superficialmente. A primeira, no século 18, da máquina a vapor, das ferrovias, do carvão, da exploração de países subdesenvolvidos pelos industrializados. A segunda, entre meados dos séculos 19 e 20, com o advento do automóvel, do avião, do rádio, da televisão. E a terceira, logo após a II Guerra Mundial, com as descobertas aceleradas de novas e revolucionárias tecnologias que redundam, agora, na extraordinária revolução digital. Cada época com seu avanços e com seus males.

Será tolice, pois, estranhar as confusões e perplexidades dos tempos que vivemos, tempos atropelados por tecnologias que, como um furacão, parecem arrasar o conhecido sem, no entanto, deixar claro o que será posto em seu lugar. Uma conseqüência, no entanto, já está clara, perceptível, impossível de passar despercebida: a importância do ser humano é proporcional à sua importância como consumidor. Quem consome é prestigiado; quem não pode consumir é ignorado.

Como haverão, pois,  de sobreviver as multidões de pobres e despreparados? Como falar-se em trabalho e emprego para elas, se as exigências de qualificação se tornam cada vez maiores? O analfabeto de ontem – que não sabia ler e escrever – foi substituído pelo analfabeto funcional de agora, que – sabendo ler e escrever minimamente – não sabe refletir. E, agora, estamos diante do novo e infeliz analfabeto, o que será colocado à margem da história: aquele que não tem habilidades com máquinas digitais e que não sabe inglês.

Qual o futuro que se descortina para as crianças e adolescentes de nossas miseráveis periferias, de todas as cidades médias e grandes, que não têm acesso às nova tecnologias? Haverá pelo menos subempregos para elas? A que portas baterão, se serviços e trabalhos simples, manuais, desapareceram, substituídos por máquinas inteligentes?

O Papa Francisco – numa de suas exortações – implorou, ao mundo desenvolvido, a criação de empregos, de mais e mais empregos. Aos simplórios, isso pode ter parecido um ato de simples caridade, palavra de pastor. Não foi. As mais profundas preocupações humanísticas estão, hoje, nos cérebros do Vaticano. Eles sabem que o mundo está sob a ameaça de revoluções sangrentas cada vez maiores. E que não virão, apenas, por questões geográficas, étnicas, religiosas. Estão chegando por reais e angustiantes questões de sobrevivência.

Os milhões de novos analfabetos não têm quem ou o quê os abrigue e proteja. O único caminho que lhes resta é o da bandidagem, de aliança com traficantes, com assaltantes, com o submundo do crime para onde vão os que não têm espaço na superfície de uma sociedade racionalmente organizada. Se nos queixamos, hoje, da violência e da insegurança, haveremos de ter saudade delas com o explodir de novas turbas desesperadas de amanhã. Deus queira que eu esteja errado. Mas – mesmo com esperança – sei não estar.  Bom dia.

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