O olhar

OlharFoi uma longa jornada mas confesso ter reaprendido a olhar. Pois, num certo momento, descobrir que, por quase toda uma vida, acho que apenas vi. E nem sempre enxerguei. Olhar, na verdade, não sei se olhei. Porque tivesse, eu, olhado com olhos da alma, teria visto e enxergado o que, há apenas alguns anos, passei a olhar, ver, enxergar.

E com os ouvidos, o mesmo tolo desperdício: ouvir sem escutar, escutar sem ouvir. Mas que fazer se a mais cristalina verdade é a de que apenas a vida ensina? Começo, cada vez mais, a entender o silêncio dos sábios, que tudo vêem, tudo ouvem, tudo enxergam e nada falam. Pois não há o que dizer quando ouvidos jovens nem sequer ouvem as batidas do próprio coração. Livros não ensinam, nem diplomas, nem estudos exaustivos, a não ser teorias que, nem sempre, correspondem à prática.

Cometi, ao longo da vida, a loucura de acreditar em lutas por um mundo e sociedades melhores, onde prevalecessem a solidariedade, o amor, a paz, a harmonia. Sempre me pareceu ser esse o mínimo exigido pela inteligência humana e pela nossa existência no tempo e no espaço. Paz, no entanto, não é apenas ausência de guerra. Por isso, não pode ser conquistada através de idéias, de teorias, de filosofias. A paz exige ação. E obras. Mais ainda: a paz possível não acontece entre tribos, as mil tribos e nações do mundo. No entanto, ela existe e pode acontecer na própria tribo a que cada homem pertence. E com quantas dificuldades, quando e se acontece!

Olhar não se olha com os olhos, mas com o coração. Enfim, descobri que a razão não tem qualquer sentido se não estiver a serviço do coração, do interior, da alma humana. Os racionalistas, quase todos, têm olhares tristes, opacos, como se apenas vissem e enxergassem a partir da inteligência, sendo cegos ao que o coração lhes mostra em cada latejar. Há um mistério na alma humana que parece adivinhar as coisas, algo como que um instinto animal que alerta sobre perigos, que indica caminhos, insinuando escolhas.

Nessas coisas, penso e repenso hoje a partir de meu próprio silêncio diante de uma conversa familiar entre os mais moços. Alguém perguntou a outro: “por quê você está triste?” A resposta foi imediata: “Triste? Não estou triste, você é que está vendo coisas.” E completou: “Pode ser que a minha cara mostre alguma coisas, mas quem vê cara não vê coração.” Ora, não seria, esse, mais um dos nossos tantos enganos, aquelas falsas verdades que passam, de tanto repetidas, a ser consideradas verdades plenas? Pois quem vê cara vê, sim, coração. A partir dos olhos, esses que dizem ser espelhos da alma. Por mais alguém ria, por mais se mostre alegre, os olhos podem desmenti-lo com sombras quase imperceptíveis de desalento, de tristeza, talvez de amargura. Até os palhaços, quando riem e fazem rir, não conseguem ocultar a tristeza do coração que lhe escapa pelos olhos.

Lembro-me de minha mãe, ensinando-me a respeitar o outro, a me relacionar com as pessoas. Quando ela me via com barba por fazer, com cenho cerrado, com rosto sombrio, ela dizia: “Reaja. O coração é seu, mas o rosto é dos outros.” É verdade. Mas ninguém consegue disfarçar o brilho ou a sombra do olhar. O coração está na cara. Nos olhos.

Nunca, como agora, me soa tão verdadeira a advertência ao homem, para ter olhos de ver e ouvidos de ouvir. Quanto mais se ouve, quanto mais se vê, mais se silencia. E se entende que a palavra é ouro. Bom dia.

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