Engravidar de humanidades

HumanidadesA frase era curta mas me conquistou: “engravidar as pessoas com humanidades.” Não me recordo de quando ou onde a li, mas adotei-a também como minha. Pois já tinha a certeza plena de não haver outra saída para o humano senão a de assumir a sua humanidade, não apenas em fraquezas e em misérias, mas em grandezas e maravilhas. Engravidar a juventude de humanidades é, pois, talvez, a única saída que nos reste nestes outros tempos também sem rumo, pois têm sido muitos os últimos tempos, décadas, de desorientação.

Dostoievski já nos advertira e muitos ainda acreditam: “a beleza salvará o mundo.” Mas a indústria da cultura de massa tem sido pérfida e maléfica, promovendo e divulgando o feio, o ruído, o deformado, o brutalizador. A arte vai-se transformando em algo caricatural, quadro de horrores. Promove-se o terror espiritual como forma de emoção, quando, na realidade, é o mais poderoso processo de intimidação e de impermeabilização da sensibilidade. Até as crianças, hoje, estão atraídas por aquilo que assusta, que apavora, que aterroriza, ao mesmo tempo em que falsos educadores perdem seu tempo em psicologismos primários, propondo que se tirem o lobo mau, a cuca, o boi da cara preta das histórias da carochinha. Nestas, havia a pedagogia na medida certa: o mal existe, mas o bem vence; o feio faz parte da vida, mas o belo o supera. Agora, apenas o feio impera.

Escrevo, ao contrário de meus hábitos – o de produzir à noite, na madrugada – numa ensolarada e translúcida manhã. Começo a gostar disso, pois me percebo no mesmo recolhimento noturno, com o mesmo silêncio e a mesmo distanciamento das coisas. Dou-me conta, então, de meu privilégio e sinto pontas de culpa, como se não me fosse lícito participar sozinho dessa epifania, sem reparti-la. Pois é uma gravidez de humanidades e ela não deveria ser apenas minha, tão pacificadora, tão generosamente gratuita.

Não se trata, apenas, de um tempo, mas, também, de um lugar, de um pequenino espaço. Aconteceu-me de, certo dia, decidir recolher-me, com todas as minhas tralhas de escrevinhador, para uma saleta ao lado da biblioteca, como que um sótão. Parece, a princípio, uma cela, mas descobri ser algo inconsciente que criei desde quando vi o cantinho de Pablo Neruda em seu paraíso na Isla Nera. De uma janela, ele contemplava o mundo feito de montanhas, azuis, penhascos, o mar. No meu sótão, há uma pequena abertura, a janela que me descortina um único horizonte: o céu e as árvores e plantas, com sua população encantadora de passarinhos, borboletas. E o silêncio, no qual Bach pode reinar em paz, em sua intimidade com Deus.

Na manhã, aconteceu-me aos poucos, quase desapercebidamente. Ao abrir a veneziana, vi o esplendor de cores e a dança dos galhos das árvores ao ritmo e compasso da brisa. Sentei-me para escrever, convidei Bach. O silêncio rendia-lhe homenagem. À procura de uma palavra ou de uma frase, meus olhos se voltavam para a abertura da pequena janela. E eu via o mesmo cenário, mas modificado a cada olhar: as nuvens já eram diferentes; havia outras borboletas; o vôo dos passarinhos mudara de direção. Percebi minha própria respiração alterar-se: menos ansiosa, mais serena. E, aos poucos, dei-me conta de ter sido levado a um estado de contemplação. E a certeza: eu engravidara de humanidades.

Comovi-me, emoção que, tive certeza, era da mais pura e genuína religiosidade, sem dogmas, sem instituições, sem religião definida. Eu estava religado ao belo, no sentido de “religare”. E eu me via em estado de contemplação diante do belo, no sentido da outra origem da palavra religião, o “religere”, contemplar. Então, quis repartir, compartilhar e não achei justo eu estar sozinho. Parecia algo egoístico. Mas me rendi à compreensão de que era um momento pessoal, epifânico, sagrado, um momento de graça. E palavras doces foram-me saindo do fundo da memória do coração: “Olhai os lírios dos campos, as avezinhas dos céus…” Eu estava olhando. E tive pena dos moços, a quem negamos a gravidez de humanidades, o engravidamento por belezas. Bom dia.

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