A couve e o carvalho

Há algum tempo, uma faixa chamou a atenção daqueles que transitavam pelas proximidades do Cemitério da Saudade. Nela, estava ufanisticamente escrito: “Piracicaba – 500 mil habitantes.” A informação parecia um grito de entusiasmo e de alegria. Para quem, no entanto, tinha um mínimo de consciência comunitária e cívica, o regozijo repercutiu como o sinal vermelho de perigo, de desalento, de lamentação. E o melhor lugar para a dramática informação era exatamente as cercanias do Cemitério. Pois, uma cidade com 500 mil habitantes é um urbicídio urbano. Teria morrido a Piracicaba “cheia de flores, cheia de encanto”?

Outra informação em paralelo, foi-nos divulgada pelo Instituto Forbes, a quem o presidente da Hyundai – empresa instalada em Piracicaba sem que se revelassem estudos sérios sobre os benefícios que traria à nossa cidade – informou que indústria pretende criar, em nosso município, uma outra cidade, abrigando mais 220 mil habitantes. Isso interessa a quem? Quais os ganhos, benefícios, riquezas culturais, qualidade de vida que esse amontoado de gente pode trazer a um povo que, por quase 250 anos, construiu um estilo de vida comunitário diferenciado, feito de nobrezas e de humanismo?

Volto a insistir, apoiando-me nas reflexões de Aristóteles e de Cícero: “Cidade não é feita de pedras, mas de homens, de cidadãos.” A grande questão que desafia os povos – e em especial nos tempos enlouquecidos que vivemos – está em saber se queremos a Utopia ou a Necrópole. Ora, a história se desenrola sempre nos lugares, no espaço. Portanto, se há tempos sagrados – o da Páscoa, a Quaresma, o Sabath – há, também, lugares e espaços sagrados. As cidades têm que viver essa sua sacralidade, pois são o espaço de o homem viver, de construir-se a família, de cultivar-se o bom, o belo, o justo, o fraterno, o solidário.

Ou Piracicaba volta a engravidar-se de humanidades, perseverando em manter-se a eterna e adorável Noiva da Colina, ou irá tornar-se uma Noiva estuprada por todos os apetites e malandragens, por interesses mesquinhos de poucos em prejuízo do anseio de muitos por uma qualidade de vida decente, digna e justa. Se deixar-se estuprar por apetites incestuosos, ela está ameaçada de ser A Noiva Violentada. Ou a Pobre Viúva Rica.

Meu tempo de jornalismo permite-me manter, ainda, a chama acesa, um amor quase desesperado por uma Piracicaba que já foi Atenas Paulista, Florença Brasileira, o Ateneo, Noiva da Colina e que, ao primeiro golpe de inovações irresponsáveis, chegou injustamente a ser chamada de Amsterdã Brasileira, pela expansão de drogas junto à juventude. Vivi aquela grande luta dos anos 1970/80, quando a imprudência e a irresponsabilidade de lideranças nos levaram quase ao colapso social. Não havia, ainda, o império do mercado, os apetites egoísticos. Mesmo assim, sofremos, abatemo-nos. Mas sobrevivemos. Piracicaba ainda pode recuperar o seu tesouro cultural e histórico que tem sido arrombado.

Queremos a Utopia ou a Necrópole? Permito-me, em nome de A PROVÍNCIA, lembrar a inesquecível lição que o imortal Ruy Barbosa – um desconhecido às novas gerações – nos deixou como herança. Eis o entendimento do grande mestre, ainda em 1910:

“Enquanto Deus nos der um resto de alento, não há que desesperar da sorte do bem. A injustiça pode irritar-se; porque é precária. A verdade não se impacienta; porque é eterna. Quando praticamos uma boa ação, não sabemos se é para hoje ou para quando. O caso é que seus frutos podem ser tardios, mas são certos. Uns plantam a semente da couve para o prato de amanhã, outros a semente do carvalho para o abrigo ao futuro. Aqueles cavam para si mesmos. Estes lavram para o seu país, para a felicidade dos seus descendentes, para o benefício do gênero humano.”

Serve-nos para distinguir o simples homem político do homem estadista: aquele planta couve; este, carvalho. As verdadeiras lideranças de Piracicaba precisam voltar a plantar sementes de carvalho.

1 comentário

  1. Marco em 27/05/2016 às 20:18

    Uma cidade que tem mais 300 mil veículos circulando na cidade, falar que ela tem menos de 400 mil habitantes, o cidadão que postou a faixa lá tem toda razão que a cidade tem mais de 500 mil habitantes, da para perceber, olha o tamanho da cidade, crescendo por todo canto, falar pra mim que tem menos de 400, ah tah quero que voceis me provem que ela não tenha mais que 500 mil habitantes, falem a verdade, porque fugir a verdade, então eu falo que Campinas não tem 1 milhão de habitantes, ela tem 600 mil, é fácil enganar né, não somos troxas não, conhecemos nossa cidade, e sabemos a sua capacidade de cidade que não para de crescer, falem a verdade !!!!!!!!!!!

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