Escrever para viver

EscreverJá contei essa história algumas vezes. Eu tinha 16 ou 17 anos e os meus pais e minha irmã Leninha acabaram achando que alguma coisa não estava batendo bem em minha cabeça. Para mim, tudo estava claro, lúcido, natural. Para eles, havia sinais de loucura.

Resolveram, então, mandar-me a um psiquiatra, o Doutor Jardim, único que existia na cidade, num tempo em que psiquiatra era tido como médico de loucos. Meus pais e minha irmã precisavam se eu era ou não, se estava ou não louco. No fundo de mim, eu me divertia com aquilo pois, para mim, loucos eram eles que não estavam entendendo nada. Assim, não ofereci resistência e aceitei ir ao encontro do Dr. Jardim, meu querido e inesquecível José Leny Jardim, um dos mortos, em meu mundo de fantasmas, que mais me deixa saudade, doídas saudades.

Ele me recebeu, olhou-me, perguntou-me o que estava acontecendo comigo. Respondi-lhe: “Comigo não está acontecendo nada. É que eu quero ser escritor e meus pais e minha irmã acham que, por causa disso, estou louco”. Ele me olhou ainda mais profundamente, um olhar que me ia alma adentro. E disse-me: “Se é isso que você realmente quer, então lute contra tudo e contra todos e vá em busca de seu sonho. Se é isso que você quer, vá em busca, lute, seja, senão você será sempre um homem infeliz”.

Foi a mais bela e balsâmica orientação que recebi em toda a minha vida muito embora eu tivesse perdido, talvez, os melhores anos de minha vida, lutando por outros ideais e outros sonhos, todos eles equivocados e tolos, se postos ao lado do sonho maior pelo qual deixei lutar por tanto tempo. Meus pais, irmãos, amigos, professores insistiam em dizer-me que um escritor acaba morrendo de fome. E tanto e tantas vezes repetiram-me isso que acabei acreditando, e tentei ter profissão estável, dar importância a dinheiro, a pensar em futuro, meu e dos que me cercavam. Tornei-me infeliz, um homem profundamente infeliz. Aparentemente, eu tinha tudo. Mas eu estava perdendo a alma, a vida. As lutas estavam erradas, eram equivocadas. Por isso, deixei de compreender muita coisa, e não me fiz compreender em quase tudo.

Escrevo isso para fazer uma confissão, de alegria, de paz, de harmonia comigo mesmo. Não tenho mais qualquer receio de morrer de fome, nem acredito nisso, pois me basta pouco para viver. Estou feliz, profundamente feliz. Nada mais tenho feito do que viver de escrever e isso também significa escrever para viver.

Deixe um comentário