Florença, Atenas e…

FlorençaPara uns, “Atenas Paulista”, como São Luís, no Maranhão, fora a “Atenas Brasileira”, cidade privilegiada em cultura e, então, com o menor índice de analfabetismo do Brasil. Para outros, simplesmente “O Ateneo”, por suas escolas e cultura, num tempo em que o escritor Raul Pompéia – autor de “O Ateneo”, o livro – vinha a Piracicaba visitar sua irmã. Quem era ela? Tratava-se da Aretusina, mulher do milionário Rodolfo Mirando, político influente, ministro da República, que adquirira a fábrica de tecidos Santa Francisca, criada por Luiz de Queiroz às margens do rio. Em homenagem à mulher, Rodolfo Miranda deu o nome de Aretusina à fábrica, tomando posse e residindo no palacete à beira rio, conhecido como o “Seio de Abraão”, depois Palacete Boyes, hoje propriedade de um piracicabano. Há uma história admirável em cada canto de nossa terra, mas ninguém mais se lembra de Aretusina, a grande dama. Nem mesmo de Rodolfo Miranda, todo-poderoso varão da primeira república.

Nos registros daquele palacete, havia a assinatura de ilustres visitantes, governadores, intelectuais, embaixadores, incluindo o escritor, Nobel de Literatura, Rudyard Kipling. Em suas memórias, a Princesa Isabel refere-se à visão que teve, da outra margem do rio – hospedada na casa majestosa do Barão de Rezende – do palacete que parecia debruçar-se sobre o Salto. Ao final do Império e ao dealbar da República, Piracicaba encantava por seu pioneirismo, pela audácia, pelo amor à cultura, à música, às artes. Basta pensar em Miguelzinho, sendo incensado, por sua genialidade, com a proteção de D.Pedro II.

Piracicaba foi mais: a “Pérola dos Paulistas” e, também, a “Florença Brasileira”, pelas artes, pelo refinamento, por um tempo em que nossa gente servia de paradigma no cultivo às letras e à música. O notável Coelho Neto – um dos mais celebrados escritores brasileiros à sua época – escrevia de Piracicaba como se fosse a Meca das artes e, daqui, ele anunciava o nome da mulher que, em seu entender, era símbolo da mulher brasileira: Lydia de Rezende. Como não se falar de Lydia todos os dias, lembrando-se dela, reverenciando-a, a celibatária Lydia de Rezende que entregou sua vida à benemerência, ao cultivo de todas as formas de refinamento, à construção do Sanatório São Luiz, do Instituto Baronesa de Rezende, da Igreja Imaculada Conceição de Vila Rezende, o apoio aos fiéis da igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário? A vida de Lydia de Rezende deveria ser cantada em prosa e verso, como um referencial a nossos jovens que estão sendo enganados por falsos ídolos que desfilam em passarelas ou em baladas inconsequentes.

Penso que penso, fico perguntando-me: quantas cidades paulistas abrigam “campi” da USP, da Unicamp e possuem sua própria universidade regional? Ufanismo, bairrismo? Que o seja, motivos há. Pois Piracicaba tem a USP, Unicamp, Unimep, a Engenharia, dezenas e dezenas de escolas do ensino fundamental e médio, um sem número de escolas e colégios particulares e, até recentemente, era de 95,30% o índice da população alfabetizada.

Um dia, porém, fomos chamados de “Amsterdã Paulista”, nos idos dos 1980, quando as drogas infiltravam-se em todos os meios sociais. De “Ateneo” a “Amsterdã”, o choque foi imenso. E desde aqueles anos sombrios, estamos patinando como que em busca da identidade escondida em algum escaninho da história, ansiosa, talvez, para ser resgatada, recuperada, à espera de ser entronizada, novamente, em seu espaço especial de cidade especial. Quem foi nunca deixará de ser. Há um hiato. Mas a alma permanece. Alguém, algum dia, haverá de fazer ressurgir a Atenas, o Ateneo, a Florença Brasileira, a Pérola dos Paulistas. E será alguém com alma e coração de artista, com visão bastante para engravidar de humanidades esse tempo confuso de materialismo tecnológico. Tecnologia sem alma é corpo sem vida. Bom dia.

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