Tolices de preconceitos

PreconceitosNinguém escapa aos preconceitos, por menores ou insignificantes sejam. Alguns podem ser graves; outros, apenas tolos. Mas estão em nós, congelados, até mesmo inconscientes ou simplesmente desapercebidos, orientando-nos em nosso cotidiano. São ideias preconcebidas das quais não abrimos mão, perdendo, assim, a oportunidade de experiências novas, de outras sensações, de revelações surpreendentes.

Preconceito é conceito prévio, antecipado. E uma das belas aventuras humanas está em assumi-lo, viver a experiência que se nega, enfrentar a ideia pré-estabelecida e, então, rever-se ou descobrir que o que se pensava fosse preconceito se transformou em conceito. Trata-se de um sair-se de si permanente. E essa seria uma das maiores riquezas do ser humano.

Acontece mesmo com as pequeninas coisas. Lembro-me de minha ojeriza por quibe cru, sem nunca tê-lo comido. Quando, na casa de meus pais, aparecia o tal quibe, eu me incomodava até mesmo ao ver as pessoas comendo-o, o prazer de desgustá-lo, a quase gula de comê-lo. Eu não entendia e, com ideia preconcebida, considerava absurdo alguém se alimentar daquela massa de carne crua. Até que, um dia, vi-me numa situação complicada. Eu estava noivo e me tornei o convidado especial para um almoço na família da bem amada. Em minha homenagem, fizeram um prato especial: quibe cru. Bati os olhos, o estômago se me embrulhou, não sabia o que fazer: seria ofensivo recusar-me a comer, ser-me-ia repulsivo comer o quibe avermelhado, a carne crua. Por gentileza, esforcei-me, provei um pedacinho e os céus se me abriram: o quibe que eu sempre me recusara a comer era um néctar dos deuses. O preconceito se transformou em conceito: quibe cru é comida divina.

Penso nessas coisas por causa de um livro que se me grudou nos olhos, que não consigo deixar de ler, que há dois dias me persegue: “O caçador de pipas.” Ora, tenho preconceito com best-sellers. Sempre me recusei a adquiri-los, conhecedor que sou dos meandros da indústria livreira, da fabricação de autores, da propaganda massiva em torno de obras quase sempre medíocres, a onda dos livros de auto-ajuda, essas coisas. Faz alguns anos que se publicou “O caçador de pipas” e pouca importância lhe dei. Amigos me diziam do livro, outros falavam do filme, li e ouvi loas a respeito. Mas, preconceituoso, sempre me recusei a adquirir ou até mesmo a folhear aquele best-seller, como ainda o faço em relação a quase todos eles.

Pois bem. Minha mulher, com jeitinho, começou a insistir para que eu lesse o livro ou assistisse ao filme. E, também com jeitinho, fui mudando de conversa, mostrando-lhe a montanha de livros que ando lendo e relendo, minha mania de ler diversos ao mesmo tempo, ora um, ora outro, espalhados todos eles pelos cantos da casa. Não havia, pois, tempo e espaço para eu sequer folhear “O caçador de pipas”. Mas quem resiste à sedução feminina? E me vi com o livro nas mãos: “Pelo menos, comece a ler, antes de falar bobagem sobre o que você não conhece.” Mais do que ordem, um desafio.

Estou querendo dizer que, em cada momento livre meu – incluindo horas de insônia – lá estou eu lendo e devorando e extasiando-me com “O caçador de pipas”, um livro que me deixa com inveja do autor, tal o lirismo e o misto de realismo, ironia, doçura e clareza narrativa em cada página, em cada frase, em cada construção. Quando mais me encanto com o livro, mais tolo me sinto por, durante alguns anos, ter-me privado desse privilégio por causa de um bobo preconceito em relação a best-sellers. E quanto mais me encanto, mais triste fico, quase em desânimo. Pois, na verdade, na verdade, eu é que gostaria de ser o autor de “O caçador de pipas”. Mas sei faltarem-me tanto engenho e arte. De qualquer modo, ficarei menos radical em relação a best-sellers. Bom dia.

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