Já é ainda

RelógioTivesse, o ser humano, maior consciência do tempo, haveria, certamente, de enlouquecer com mais rapidez. Na fantasia, na invenção que fazemos das coisas – tentando tornar absoluto tudo o que é relativo – tempo e espaço são perturbadores. Há uma imagem que incomoda: a roda girando, girando e o homem, imobilizado no eixo e no centro dela, vendo tudo passar. Como se, em cada estação do ano, a vida se fosse escoando. Parece-me – mas não sei – ser de Agostinho a definição do tempo como “imagem móvel da imóvel eternidade”.

O tempo passa, roda, gira diante do eterno que não se movimenta. E o homem prisioneiro disso. Essa consciência enlouquece, na revelação da nudez e da impotência humanas diante da eternidade. Ou pode pacificar, se o homem acreditar-se eterno também. Talvez, por isso, tenhamos inventado o relógio, algo para medir o tempo. Que, na verdade, não resolveu nada. Relativizar o absoluto complica ainda mais as coisas. Um minuto pode ser uma eternidade para alguns e, ao inverso, o que pareceu ter a dimensão da eternidade não passou, para alguns, de um simples segundo. Assim, também, com o espaço: mil metros são uma longa marcha para quem caminha pé; e um suspiro, quando se está num avião.

Aconteceu conosco, dois amigos. Não nos víamos há muitos anos. Ele me disse que há 20 anos. “Já?”, perguntei, espantado com o que me pareceu uma tão rápida passagem do tempo. E, então, perguntei-lhe da mulher, se continuavam após aqueles 20 anos. E ele me respondeu: “Ainda!”, como se aqueles anos – que pensei tivessem passado tão rapidamente – estivessem, para ele, arrastando-se, alongando-se. “Já” e “ainda”, pois, ora podem nos dizer do agora, do momento presente, como daquilo que se foi ou daquilo que poderá ser.

Diante dos anos que se passam, podemos ficar perplexos ao descobrir que “já” se foram tantas décadas. Para, logo em seguida, perceber que coisas desses tempos “ainda” continuam como eram. Descobrindo que quase nada mudou, “já” me sinto vencido pelas tantas lutas que não deram certo. Ao mesmo tempo, porém, eis que “já” me desperto em novas esperanças. Pois “já” sabendo que aquilo acabou, eis que, também, “já” sinto que tudo poderá recomeçar. E isso eu sei “já”, agora. Numa única palavra – “já” – misturam-se, pois, em mim, presente, passado e futuro.

“Ainda” agora, percebo que mentiras de políticos “ainda” continuam e que “ainda” continuarão. Desde minha criancice, políticos “ainda” e “já” mentiam. E, daqui a 20 anos, se eu “ainda” estiver vivo, políticos “ainda” continuarão mentindo. “Já” mentem, poderão mentir “ainda” mais. “Ainda” mentem, mas houve políticos que “já” mentiram mais “ainda”. “Ainda” agora mentem, como “ainda” ontem mentiram, como “ainda” amanhã haverão de mentir. “Já” mentem hoje, “já” mentiram ontem e “já”, amanhã, poderão voltar a mentir.

Quando se ama, o tempo é rápido com a pessoa amada: “já?” E, quando o amor se torna um fardo, o tempo é lento ao lado de quem se amou: “ainda?” Quando se quer, quer-se “já”; quando não se quer, “ainda” não. Muitas vezes, porém, “ainda” que eu queira “já”, “ainda” não é possível “já” ter. E, de repente, eis que “já” se tem, “ainda” que parecesse impossível ter. Ou, então, o desconsolo ou a conformação: “já” que não posso ter, “ainda” assim esperarei. Mas eis que – bloqueados por tempo e espaço – o desejo dos amantes é de tal forma incontrolável que a paixão se faz heroica e trágica, a busca do além: “ainda” que impossível, que o amor se realize “já.” No desfecho trágico, contos e poesias e romances então revelam: o “já” daquele amor “ainda” era, realmente, impossível de se completar. Apenas a sabedoria, talvez, mostrasse aos amantes que, esperando, “já, amanhã”, “ainda” eles “já” poderiam viver o que, “ainda” ontem, “já” lhes era negado. Amantes, porém, não são sábios. Felizmente.

O fato é que, “ainda” que as coisas continuem todas como são e como eram – e “já” que, quanto mais se mexe, mais elas continuam iguais – algo pequenino e quase simplório nos sobra de lição em relação ao tempo, ao espaço, àquilo que não conhecemos e que, quase sempre, nem sequer conseguimos ou queremos compreender: “ainda” que exista um sonho de amanhã, é preciso viver “já”. Pois, “já” que o amanhã tarda a chegar, “ainda” há o hoje para se viver. “Ainda” existe um “já”. “Ainda”…

Publicada originalmente no Correio Popular em 30/8/2002

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