Meu amigo Zé ABC

picture (33)Sem nada poder fazer, paralisado de impotência, continuo vendo o mundo acabar. O meu mundo, o de minha geração. E, portanto, uma Piracicaba que se vai acabando para dar lugar a uma outra ainda indefinida e instável. Agora, lá se foi o nosso Zé ABC, meu amigo Zé ABC, de quem posso repetir, com orgulho, o que já escrevi quando ele em vida: foi um dos mais completos jornalistas de Piracicaba de todos os tempos. E, mais do que ser jornalista, foi um ser humano maravilhoso em sua humildade profunda, em sua generosidade inesgotável.

Mal saíra, eu, dos primeiros aprendizados no Jornal de Piracicaba, ajudando na revisão de textos, aos meus 16 anos, quando cheguei, intrometidamente, ao Diário de Piracicaba, do Sebastião Ferraz. Houvera, na realidade, uma revolução gráfica no jornalismo, promovida pelo Ferraz. E, se o Jornal acolhia os velhos medalhões da cultura piracicabana, o Diário começara a abrir-se para os mais jovens, os iniciantes. Em meados dos 1950, a febre cultural, a busca do novo, a chegada de Juscelino, a euforia com Luciano Guidotti, o sonho de Brasília, tudo era uma só ebulição.

No Diário, fiquei quase em silêncio ouvindo o que, entre outros, diziam os também moços Osvaldo de Andrade, Edson Rontani, Isidoro Polacow, Zé ABC, Ditinho Linotipista e, logo depois – já no final da década – Mauro Pereira Vianna, o Marco Aurélio. O notável Joaquim do Marco era o patriarca da casa. O riso e o humor de Zé ABC contagiavam. De máquina fotográfica pendurada no peito, lá se ia ele em busca de flagrantes, da cobertura esportiva e da reportagem geral, ora ficando, ora saindo, assessorando o deputado Bentão, o Bento Dias Gonzaga que sonhava em criar um outro jornal em Piracicaba.

A humildade de Zé ABC foi uma das responsáveis por ter-se, ele, tornado um dos mais injustiçados jornalistas de Piracicaba. Autodidata, seu conhecimento era amplo em todas as áreas, da política ao esporte, da arte ao entretenimento, circulando com serenidade por todos os círculos sociais. Apaixonado por sua família, Zé ABC viveu e lutou por ela, a ninhada de filhos que ele tanto amou, a companheira inseparável. Zé ABC afastava-se dos holofotes, como se as luzes o ferissem em sua humildade. Preferia os bastidores, o segundo plano, sem jamais ter deixado de ser observador arguto e sagaz.

Uma das mágoas que causei ao também falecido e querido Sebastião Ferraz, foi quando, inadvertidamente, revelei que o verdadeiro autor da coluna “Sem flores e sem frutos” – a primeira e mais famosa coluna de humor do jornalismo piracicabano – era o Zé ABC. Com o pseudônimo Cactus, Ferraz envaidecia-se por se dizer o autor. Mas o Cactus verdadeiro era o Zé ABC que trocava figurinhas quase diárias com o também genial Edson Rontani e suas tiras pioneiras de quadrinhos.

José Antônio Bueno de Camargo ocupou os mais altos postos em toda a imprensa piracicabana, jornais e revistas, de sua época. Com brilhantismo e, como por uma bênção cristã, sem jamais ter perdido a sua mais bela virtude: a humildade. Foram anos sem fim de convívio com Zé ABC, um injustiçado. Poucos jornalistas foram tão competentes e honestos quanto ele, poucos viveram com tanta humildade a verdadeira função do jornalismo que, mais do que apenas informar, é informar servindo. Zé ABC serviu. E serviu com dignidade e generosidade de alma. Sua morte é outra pá de terra que se joga na cova de um tempo incrivelmente brilhante, magicamente decente. A esperança é a de que, em algum lugar desse infinito, Zé ABC esteja reunindo a velha turma, preparando um novo jornal. Que guarde lugares para nós, os poucos que ainda restamos. Adeus, amigo querido. E bom dia.

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