Mudança de hábitos

MudançaÉ complicado mudar de hábitos. O tempo vai passando e, de repente, chega um momento em que se percebe: a cabeça e a vontade querem, o corpo não acompanha. Ou, então, o corpo propõe, a cabeça recusa. Acho que as pessoas chegam a um tempo de harmonia consigo mesmas e, nem sempre, se dão conta disso. Harmonia de corpo e espírito. E por isso mesmo, algo que começa a acontecer com mais lentidão, talvez sem pressa ou afoitezas, sem sofreguidões. Nem oito, nem 80.

Resolvi mudar alguns hábitos. Um deles – e, talvez, o principal é o de varar madrugadas escrevendo, vício profissional. Pois sou daqueles tempos heroicos e românticos em que o fechamento da edições de jornais se davam pela madrugada, quando não já manhãzinha. A redação, muitas vezes, nem sequer ia para casa. Ou se ia para os botecos, tomar chope, ou, se amanhecia, lá estávamos no mercado, tomando café e comendo pastéis. Jornalismo e boêmia confundiam-se, eram parte um do outro.

Aprendi a dormir pouco, mesmo porque não havia outra solução. A redação encerrava seus trabalhos por volta das três, quatro horas da madrugada. E, estudando Direito, em Campinas, eu tinha que tomar o ônibus das 5h30, muitas vezes antes de o sol aparecer. Aprendi, também, a dormir em ônibus, dormir em avião, dormir em automóvel. E durmo diante de televisão.

Pois bem. Quis mudar hábitos. Abandonar a madrugada e participar da novidade de cada amanhecer.

Ao invés de coruja, andorinha. Ou pardal. Estou, ainda, em treinamento, mas já posso adiantar que não vai dar certo, não tem graça. Pela manhã, há muito sol, muita luz, as coisas são translúcidas demais. E, assim, os mistérios

desaparecem.

Manhã não tem mistério. São apenas milagres. As madrugadas, além de milagrosas, têm mistérios com os quais já me acostumei, fantasmas que se tornaram íntimos, conhecidos, amizades pessoais e particulares. As manhãs são formidáveis para o corpo, que se inebria delas. Mas a alma se esconde. Talvez, as almas ou pelo menos a minha não gostem da claridade. Até as ruas são outras, formigueiros, multidões de rostos amargos, atribulados. A noite é dos andarilhos, de conversar com as coisas. Os fantasmas dormem durante o dia. Sem fantasmas, não há como escrever. E bom dia.

*Publicado originalmente na Tribuna Piracicaba em 10/02/93

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