O prefeito “`Punho de Rendas”

Houve um prefeito em Piracicaba – e cito-o sempre, personagem fascinante – que, por seu refinamento cultural e pessoal, era conhecido como “Dr.Punhos de Renda”. Jorge Pacheco Chaves, o nome dele. Prefeito nomeado ao tempo da ditadura Vargas, o Doutor Jorge resumiu a sua pretensão de governo numa frase que deveria, penso eu, sempre ser lembrada: “É preciso civilizar Piracicaba.” E, à época dele – 1944 – éramos uma das mais civilizadas cidades brasileiras, ainda reconhecida como “O Ateneu”, a “Atenas Paulista”, “Cidade das Escolas”, “Pérola dos Paulistas”, “Florença Brasileira”.

O Doutor Jorge sabia que civilização é processo, algo contínuo. Se se interrompe, a barbárie avança. Bárbaros e civilizados são inimigos naturais, adversários irreconciliáveis. Até nas lutas internas e competições, a civilização exige refinamentos, códigos, consenso. E, por isso, grupos e cidades civilizadas não permitem agressividades gratuitas, desregramentos, lutas descontroladas, sem leis, essa desordem própria da barbárie.

Civilização são espaços protegidos, de jogos e não de guerrilhas incontroladas, lugares que permitem competições com regras e acordos sociais, pois prevalece o bem comum. Assim, os espaços urbanos, para serem civilizados, obrigam seus ocupantes à renúncia de apetites exacerbados, impedindo-os de se atacarem uns aos outros, de se prejudicarem entre si. Não se trata de utopia, mas de um dos fundamentos da civilização, ponto vital para a vida urbana.

O Doutor Jorge – na sua visão da época – acreditava em jardins e que Piracicaba iria civilizar-se cada vez mais a partir deles, lugares edênicos, de convivência, de lazer. E sonhou fazer, na Praça José Bonifácio, uma réplica das Tulherias. Era seu ideal de civilização, a França. Piracicaba seria a sua pequenina Paris. Um sonho de louco, convenhamos. Mas lindo. A tristeza está em haver quem prefira guerras tribais a museus, agressões a serenidade, lutas fratricidas a convivência. Com a omissão dos bons e dos responsáveis, as cidades vão-se transformando em campos de batalhas. Piracicaba, também.

Ora, não há mais que buscar desculpas em sistemas ou planos econômicos, em globalização. Fazê-lo é pretender diluir responsabilidades. Ninguém mora no mundo. Mora-se na cidade, no bairro, no quarteirão. Não há civilidade no caos. O espírito civil – da “civitas” – de civilização, de civilidade é o mesmo espírito de polidez, polimento, polícia, político, da “pólis”. Os espaços urbanos são seletivos. Isso significa seleção. Daí, a cidade ser seleta: nela, os civilizados; fora dela, os bárbaros. Civilidade é conquista, processo, busca. É a soma de vontades, aglutinando raças, credos, cor, condições econômicas diferentes, a esquecida “unidade na pluralidade”. São escolhas, definições, entendimentos, acertos, aceitação de acordos. E um dos acordos básicos das cidades civilizadas é a certeza de que bandido é bandido, mocinho é mocinho. E de que, portanto, eles não se misturam. Ordem é ordem, desordem é desordem. Lei é lei, infração é infração. Autoridade é autoridade, respeito é respeito.

Onde ninguém manda e comanda, ninguém obedece, nem participa. A anarquia surge após a derrocada da hierarquia. Não há civilização anárquica. Piracicaba se aproxima dessa desordem de bárbaros. O bandido está vencendo. Ficar construindo pontes e rotatórias é perfumaria diante de tantos problemas humanos. E benefícia amigos do rei. Por que não retomarmos o espírito refinado do prefeito Pacheco e Chaves, o “Doutor Punhos de Renda”? Bom dia.

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