O quartel de Abrantes

picture (9)É de espantar o descaramento de políticos em nossos tempos e em todos os níveis. No meio da lama, é como se nada estivesse acontecendo. Talvez, aliás, porque estejam acostumados a tanta sujeira que nem mais se dão conta das diferenças entre limpo e sujo. Não fosse a crise financeira internacional e, agora, a gripe suína, a imprensa estaria, ainda, revelando novos escândalos, pois o cofre se abriu e, puxado o fio da meada, ela se vai desenrolando. Algum dia, acontecerá aqui em Piracicaba, que se vai tornando o paraíso das mais absolutas impunidades. Em todos os sentidos.

Ainda permanece atual a anedota que tomou conta das ruas, a da professora que pediu o aluno conjugar o verbo planejar. Ele: “eu planejo, tu planejas, ele planeja…” Cumprimentando-o, ela perguntou: “Qual o tempo do verbo conjugado? Resposta do aluno: “Tempo perdido, dona.”

Parece coisa de ontem, mas é, ainda, de hoje. Os mesmos personagens dizendo as mesmas coisas, as mesmas críticas, as mesmas provocações. José Serra critica o modelo econômico de Lula que criticou o de Fernando Henrique que também se inconforma com o de Lula, embora tudo seja a mesma coisa. Já em 1964, Carlos Lacerda – o tribuno que derrubava presidentes – criticava o modelo econômico de Castello Branco. E a anedota, de planejar e do tempo perdido, chega-nos dos mesmos tempos, do planejamento de Roberto Campos e Bulhões, tal como agora, nos das esferas federal, estadual e municipal.

Napoleão invadira Portugal, espalhava terror e, em seu quartel, o general Abrantes mantinha-se sereno, como se nada ocorresse. Se lhe perguntavam como iam as coisas, a resposta era a mesma: “Tudo como d´antes no quartel do general de Abrantes.” Se a expressão sobreviveu, é porque tudo, ainda, continua “como d´antes”, também na amorável Terra de Santa Cruz. Em especial na política.

Desconfio que, de tanto já ter ouvido as mesmas coisas, seja, eu, capaz de prever perguntas que começarão a ser feitas a candidatos nessa antecipação de campanha eleitoral, quando Lula mal conclui o segundo ano do segundo mandato. Temas: educação, saúde, trabalho, segurança. Por aqui, bacia do Piracicaba, segurança, habitação, busca de financiamentos, parceria com a iniciativa privada, qualidade de vida, ambientalismo, apoio à cultura, projetos turísticos, talvez, até mesmo, o fortalecimento do “Nhô Quim”. Confesso: eu não saberia o que lhes perguntar. Nem teria paciência de ouvir.

Continuo, no entanto, pensando muito em dois critérios que podem ser levados em conta na escolha de candidatos, até mesmo para entrevistá-los. O primeiro é do o jogador de futebol, não sei se uma reflexão antropológica do Roberto da Matta, se estudo de perfis psicológicos de outro experto. Segundo se observou, sabendo-se da posição em que alguém jogou futebol, conhece-se um pouco de sua personalidade: o centro-avante é agressivo, personalista, dispersivo; o meia-armador , cerebral; o zagueiro central, mandão, tipo xerife; o goleiro tem tendências protetoras. Poder-se-ia – por que não? – escolher o candidato que se deseja: individualista, agressivo, cauteloso, planejador.

Outro critério, quem o inventou, adotando-o, foi o saudoso Lazinho Capellari. Para contratar funcionários e auxiliares – na Prefeitura da então pequena São Pedro – ele procurava saber se o candidato era bom filho. Dizia-me, o Lazinho: “Se alguém é bom filho, é, também, bom cidadão, bom funcionário, bom político.” E completava: “Se for mau filho, será péssimo cidadão e ainda pior funcionário, político sem caráter.” Com o tempo, vi estar, ele, coberto de razão.

De minha parte, nem sei mais se vou votar. Mas, quando chega a hora, acabo votando. Se acontecer, vou adotar os dois critérios: o do Lazinho, procurando saber se há bom filho por aí. E o do futebol, escolhendo alguém que jogue ou tenha jogado na ponta esquerda. Pois, por aquele estudo, o ponta esquerda é alguém com estilo mais lúdico de viver, que fica à espera da bola e, quando a recebe, encanta os olhos, inventando firulas e belezas. É eficiente quando acionado. E mais: ponta esquerda, pelo menos, não atrapalha.

O problema é encontrar. Por aqui, está tudo como d´antes, tal e qual no quartel de Abrantes . Bom dia.

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